Autora: Tainara Ferreira
O Brasil assiste, em tempo real e em alta definição, a mais uma temporada de vigilância extrema. Entre provas de líder e discussões de convivência pautadas em dinâmicas raciais e de gênero, o fenômeno do “cancelamento” volta a ocupar o centro do debate público digital. No entanto, precisamos dar um passo atrás da euforia das redes sociais para questionar: a quem serve o linchamento virtual de corpos negros em rede nacional e como isso afeta nossa capacidade de organização enquanto povo?

O Mito da Neutralidade e o Olhar de Lélia Gonzalez Para entender o presente, é mandatório evocar Lélia Gonzalez. A intelectual e ativista já nos alertava que o pensamento hegemônico que molda a nossa formação cultural não é neutro; ele possui um caráter estritamente eurocêntrico e andocêntrico.
Isso significa que a régua utilizada para medir comportamentos, moralidades e falhas dentro do reality é baseada na perspectiva do homem branco europeu. Quando não questionamos esse viés, acabamos por reproduzir violências contra os nossos, utilizando as ferramentas do opressor para “corrigir” aqueles que estão sob o holofote. É por isso que estabelecer novas perspectivas para a formação histórico-cultural do Brasil não é apenas um exercício acadêmico, mas uma estratégia política de emancipação.
Educação e Resistência: Nilma Lino Gomes e a Lei 10.639/2003
Nesse processo de reeducação do olhar, a atuação de intelectuais como Nilma Lino Gomes é fundamental. Gomes destaca que a educação é um campo de disputa e que a implementação da Lei 10.639/2003 — que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana — é um marco na construção de uma identidade nacional que reconheça as nossas raízes.
Não podemos separar a experiência da pessoa negra da sua trajetória histórica e social. Sem o embasamento que essa lei propõe, o público fica à mercê de interpretações superficiais e racistas sobre o comportamento negro em espaços de poder ou entretenimento. A lei não é apenas uma diretriz escolar; é uma ferramenta de soberania.
De Karol Conká a Davi Brito: O Pêndulo da Punição
O espetáculo do cancelamento manifesta-se de formas distintas, mas igualmente perigosas. Vimos a queda vertiginosa da cantora Karol Conká, onde o erro foi transformado em entretenimento punitivo, e observamos a trajetória do campeão Davi Brito, que, mesmo vitorioso, enfrentou o escrutínio constante de uma audiência que oscila entre a exaltação e o desejo de queda.
É ilusório acreditar que o cancelamento individual irá promover fins de transformação na esfera pública. O espetáculo da punição gera lucro para as plataformas e engajamento para a branquitude, mas não altera as estruturas. Foram as lutas do Movimento Negro que possibilitaram a efervescência contemporânea da pauta racial, e não o linchamento digital.
Mídia, Senso Comum e Soberania
Compreender os mecanismos da mídia e do senso comum é entender que o sistema prevê a nossa distração para neutralizar nossa capacidade de atuar em prol da soberania popular. Enquanto o debate se encerra na condenação de um indivíduo, as estruturas de opressão permanecem intactas, operando silenciosamente por trás das câmeras.
Endossar um olhar descolonizado sobre as ferramentas de comunicação hegemônica é recusar o papel de carrasco que nos é delegado. É entender que a nossa soberania depende da nossa capacidade de não sermos pautados apenas pelo espetáculo, mas pela consciência real do que nos oprime. A vigilância que o programa propõe aos telespectadores deve ser redirecionada para as engrenagens que lucram com o nosso conflito.
Estejamos atentos 24h também.
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