95% dos brasileiros acreditam que a polícia é racista, revela estudo

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A pesquisa mostrou ainda que 4 em cada 10 entrevistados já sofreram algum tipo de violência policial

Frase dita, pelo menos, 20 vezes por George Floyd antes de morrer, debaixo do joelho de um policial branco nos Estados Unidos – Foto: Diego Varas

O Instituto Datafavela e a Central Única das Favelas (CUFA), realizaram uma pesquisa, intitulada “Periferia, Racismo e Violência”, em parceria com o Instituto Locomotiva, divulgado esta semana, e revelou que metade das pessoas que moram em periferias disseram ter medo da polícia. O mesmo estudo revelou que a frase “a polícia é perigosa para pessoas como eu”, afeta 54% das pessoas negras, enquanto para as pessoas brancas, 17% da frase faz sentido. Além disso, a pesquisa mostrou também que apenas 5% dos brasileiros acreditam que a polícia não é racista. Por outro lado, 52% dos entrevistados avaliam a polícia como “muito racista”. Entre as pessoas negras, esse número sobe para 60%. 

Violência policial e periferia

Sendo os principais alvos da polícia, os moradores de periferia revelaram também que 4 em cada 10 brasileiros já sofreram algum tipo de violência advinda de agentes, seja desrespeito, agressão verbal e física ou extorsão e os homens negros são mais expostos às abordagens do tipo, mesmo em comparação com homens brancos de baixa renda. 

Além disso, a pesquisa mostrou que 56% da população negra (pretos e pardos) já se sentiram intimidados ao interagir com policiais em situações rotineiras. Porém, quando se observa apenas os relatos de pessoas pretas, o número sobe para 67%. 

Segundo a cientista social Silvia Ramos, os meninos negros periféricos, principalmente, aprendem a ter medo da polícia desde pequenos, das abordagens injustificadas, humilhações e espancamentos. “Quando a gente vê que a polícia do Rio de Janeiro matou mais de 1.810 pessoas [em 2019] e, esse ano, só durante a pandemia, em abril, matou 43% a mais em operações do que no ano passado, eles percebem que a polícia é violenta e racista, orientada para identificá-lo como criminoso”, disse Ramos no debate online de apresentação da pesquisa nesta quarta-feira (8).

Somente no Rio de Janeiro, em 2019, a polícia matou 1810 pessoas – Foto: Divulgação

Experiência familiar

Mesmo já sendo conhecido nacionalmente, o rapper Rappin’ Hood afirmou que sente medo do filho dele nas ruas. “Sempre disseram que éramos marginais, maloqueiros, mas éramos apenas homens negros. Tenho um filho de 18 anos e medo de deixar meu garoto ir pra a rua. O medo que meus pais sentiam”, revelou. 

O que dizem as autoridades

De acordo com o Secretário de Segurança Pública de São Paulo, coronel Alvaro Batista Camilo, a comoção mundial com a morte de George Floyde influencia a pesquisa e, ainda segundo ele, a Polícia Paulista não compactua com atitudes racistas. “Nós nos preocupamos muito com os direitos humanos, em tratar as pessoas como gostaríamos de ser tratados. Procuramos transmitir isso ao policial e temos procedimentos de gestão para rever as ações da polícia”, afirmou Camilo, para quem os casos de violência policial no estado são pontuais.

Segundo Elizeu Soares, ouvidor das polícias paulistas, o racismo não é um problema apenas dos agentes de seguranças, mas estrutural. “O estado brasileiro é racista. Acho errado isolar uma instituição quando o problema é de toda a sociedade. Quando chega na mão do policial é porque o estado já falhou. Precisamos ressignificar a cidadania e criar uma cultura de paz, de confiança na polícia”, alertou.

No entanto, de acordo com Marcelle Decothé, do Instituto Marielle Franco, apenas modernizar a polícia não é o suficiente, é preciso mais que tecnologia para uma mudança real. “Mais armas, helicópteros e operações sofistificadas não diminuem o número de homicídios e nem a violência policial. Precisamos que o estado não entre na favela só com o braço de segurança pública, a polícia”, lamentou. 

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Igor Rocha

Igor Rocha é jornalista, nascido e criado no Cantinho do Céu, com ampla experiência em assessoria de comunicação e escritor nas horas vagas. Editor e coordenador regional do Notícia Preta

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