Valéria Monã: ‘Quero um futuro em que não precise provar que sou atriz e bailarina’

Bailarina há 25 anos, Valéria Monã também é atriz, coreógrafa e professora de dança. Sempre desejou fazer algo voltado para arte, mas não imaginava chegar tão longe. A artista lembra que, na adolescência, ingressou no grupo de dança afro Mosca, vinculado a um projeto social na cidade de São João de Meriti após uma brincadeira entre ela e a mãe:

“Eu não fui me inscrever para dançar. Minha mãe era ativista, fazia parte desse projeto social e se inscreveu para participar das aulas de dança afro. Eu fui vê-la, fiquei sentada e rindo porque ela não tinha coordenação nenhuma.  Então ela me provocou, disse que pelo menos estava tentando enquanto eu só ria. Daí comecei a dançar e estou até hoje”.

Depois de anos de estudo, Valéria foi indicada para dar aulas em uma escola da rede estadual, onde trabalha até hoje como animadora cultural. Tempos depois, passou a comandar o primeiro grupo de dança afro primitiva do Rio de Janeiro, na Escola Estadual de Dança Maria Olenewa. Atualmente, está à frente da Companhia Valéria Monã, no espaço Rampa. Sobre as aulas, ela conta que é procurada por pessoas de todas as idades.

“Não tem uma turma para iniciantes e outra para os mais avançados. Eu boto todo mundo junto porque é uma forma de acolhimento também. Com o decorrer do tempo alguns alunos foram se formando e montando suas próprias turmas de dança afro.  Tem uns yaôs meus aí na estrada. Isso é muito bom, porque eu tento sempre trazer para dentro dessas aulas a origem do que é cultura negra, espiritualmente, no trabalho ou na estética, diz a bailarina.

Bailarina Valéria Monã Foto: Juliana Rocha

Como atriz, integra a Companhia dos Comuns, um grupo de teatro composto somente por atores negros e atuou nas peças ‘A Roda do Mundo’, ‘Bakulo’, ‘Candaces- a reconstrução do fogo’, entre outras. No momento, ela se apresenta no espetáculo Contos Negreiros do Brasil. Ao lado do ator e diretor de teatro Hilton Cobra (Cobrinha), Valéria também ministra oficinas de aspectos culturais e religiosos de matriz africana para composição de personagens. Segundo ela, essas oficinas são uma “espécie de cartilha negra”, que tem por objetivo trazer referências, explorar a estética e o domínio do corpo negro para as cenas.

Valéria pontua que com todo esse trabalho almeja ajudar a criar espaços para a representatividade negra:

“A busca do futuro somos nós. É a gente se juntar cada vez mais, porque juntos vamos muito mais longe e vamos com massa. Crescemos tantos porque saímos do individualismo, por isso que hoje a gente amedronta tanto. Quero um futuro em que eu não precise me preocupar a ensinar meu filho a se defender; que eu não precise provar que sou uma atriz e bailarina e quantos mais dos meus estiverem nesses espaços, menos eu vou precisar explicar isso”.

Louise Freire

Jornalista e apaixonada por livros. Concluiu sua graduação em 2016 e no mesmo ano estagiou em uma revista. Participou da produção de um programa da TV Brasil e trabalhou como produtora audiovisual.

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