Rappers independentes lutam para se manter durante a pandemia

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Em março de 2020, um levantamento feito pela Conferência Musical SIM São Paulo mostrou que, com o cancelamento de 8.141 eventos, cerca de R$ 442 milhões foram perdidos pela falta de público presencial nos espetáculos. Nesse cenário, os rappers independentes sofrem com a falta de renda vinda de eventos de rua e do público, o que os obriga a se desdobrarem em outras funções.

Tamara Franklin ressalta que “precisou fichar” para continuar pagando as contas – Foto: Divulgação

Em entrevista ao Notícia Preta, a MC mineira Tamara Franklin, relata que com a pandemia precisou voltar ao mercado de trabalho formal. “A corda arrebenta primeiro pro lado mais fraco, e com este governo, os artistas brasileiros estão mais do que nunca e definitivamente desse lado. Precisei fichar para dar conta de viver e de continuar fazendo RAP […] Grana e investimentos na cultura são outros grandes desafios e manter a saúde mental em dias, com as contas chegando, principalmente nessa pandemia, é um desafio gigante”, diz ela. 

O cantor e compositor independente da zona sul de Curitiba, Pedro Cunda, de 21 anos, também conhecido como Pecaos, conta ao Notícia Preta que o retorno vindo de apresentações presenciais faz falta. “Rede social não traz muito dinheiro, então temos que recorrer para outros trampo. Artista independente além de ter que fazer arte, o corre inteiro, ainda tem que ter outro trampo para sustentar tua casa e fazer teus bagulho”.

“A pandemia prejudicou muito o desenvolvimento, as coisas deram uma estagnada, principalmente no financeiro, que a gente acaba não conseguindo tirar o dinheiro de show, desses bagulho que é mais externo”, continua Pecaos.

“O rap é uma parada que se aplica e ter aplicar o bagulho a distância é muito diferente, sinto que não supre a minha necessidade da comunhão mesmo”, diz Pecaos

RAP Independente

Pecaos, que está trabalhando em sua segunda mixtape que sucede seu último projeto chamado “Teoria do Caos”, conta que são vários os desafios de ser um artista independente. “Quando começamos a fazer rap, acreditamos que vamos precisar exercer a parte que queremos, que, no caso, é escrita. Mas um artista independente precisa fazer o corre inteiro, fazer pelo bem maior que é a música, né. Coisas que não são alçadas, do nosso conhecimento, do alcance ali e nós temos que acabar pesquisando até mais pra conseguir fazer o bagulho acontecer”, diz ele.

Capa da música “Aprendiz” do EP “Teoria do Caos”, de Pecaos [ao centro da foto]  – Foto: Juliana Berdak

Sobre sua trajetória no RAP, Tamara ressalta. “Eu não só tenho o RAP como minha expressão, profissão e manifestação artística. Eu tenho a cultura Hip Hop como estilo de vida. O Hip Hop determina tudo nessa trajetória […] Sou pesquisadora do RAP e me dedico a experimentá-lo e congregá-lo com estes outros ritmos e expressões culturais, vou entregando os resultados desses diálogos em forma de música para as pessoas, as minhas músicas são os documentos dessas pesquisas”, conta.

“Vivemos um momento onde o Hype manda muito e eu acho que o maior de todos os desafios é conseguir confiar que quem você é, já é bom o suficiente, que não precisa imitar o fulano, que o sicrano não tem a fórmula mágica para o seu sucesso. Ter essa coerência parece muito óbvio, mas em uma era de influencers, e algoritmos ditando o que é bom e ruim, se manter autêntica e equilibrada é muita treta”, completa Tamara.

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Pecaos, conta que seu início no RAP foi em batalhas. “Foi aí que sinto que foi meu berço, foi onde eu aprendi junto com a rapaziada. Foi um momento que circulou muita rapaziada nova, com fome de bagulho e essa fita foi me inspirando, mas a vida do RAP para a minha vida tem toda outra circunstância”, acrescenta ele.

Quando questionado a respeito do seu futuro no RAP, Pecaos acrescentou. “É uma terapia mesmo, é um bagulho que se direciona. Mas eu tento não pensar muito em um futuro, eu tenho uma rua pra fazer os caras entenderem o que eu tenho pra falar antes de chegar em outra vila, para chegar em outra cidade e antes de chegar em outro tempo”, comentou.

Mulheres no RAP 

Tamara Franklin conta que o RAP, junto aos outros elementos do Hip Hop, surgiram como uma contracultura e tecnologia social de reorganização de uma juventude oprimida. Tanto para Homens quanto para mulheres, o RAP se coloca como voz e o Hip Hop propõe uma agenda que trata de igualdade de direitos e equidade, isso faz com que ele seja maravilhoso. Temos, ao longo de toda a história do Hip Hop, mulheres, sobretudo pretas, como protagonistas sejam Mcs, empresárias e produtoras”

“Como mulher preta, eu me sinto na responsabilidade de discutir isso de um outro lugar e não reduzir uma cultura preta a um mero espaço machista. O fenômeno de desvalorização feminina é uma imposição do patriarcado europeu, contra o qual o Hip Hop sempre se posicionou em sua filosofia. Mas a invisibilização e inferiorização de mulheres foi enraizada como algo natural e isso mina culturas afrodiaspóricas. O Machismo no RAP do qual muita gente fala, é o mesmo que encontramos em nossas casas, nas ruas, no mercado de trabalho. Não é exclusivo do RAP e precisa ser discutido em um outro nível”, alerta Tamara.

Já Julia Costa, conhecida como Ajuliacosta e idealizadora da marca ajuliacostaSHOP, conta que, para ela, o RAP é um movimento machista e o que mais dificulta é ter um público também machista. “Além de ser um movimento machista, ele se acostumou a deixar a mulher preta por última hipótese. Eu espero ver um amadurecimento na indústria e no público e que mulheres não precisem mais pedir para serem ouvidas. Diversas vezes, as pessoas me olham estranho quando digo que faço RAP, quem é de fora ainda tem uma visão antiga sobre nós, e quem é de dentro nem sempre bota fé”, diz ela. 

Julia Costa lembra que a sociedade é machista e o rap está introduzido na sociedade Foto: Arquivo Pessoal

A MC mineira, Tamara Franklin, ainda conta como é para o RAP fora do eixo Rio de Janeiro e São Paulo. “Creio que estamos vivendo um momento bom na cena RAP daqui, temos nomes e eventos importantíssimos nacionalmente. Sempre tivemos nomes incríveis aqui e acho que de uns anos pra cá, a mobilização dos coletivos periféricos, e as micropolíticas criadas por artistas populares, trouxe um respiro para o público local que tem se educado a consumir artistas mineiros. Creio que para qualquer artista, mais do que tentar se inserir a qualquer custo nesse eixo RJ/SP, é valioso experimentar também outros pontos de vista e investir em outros públicos, mercados e maneiras de se desenvolver”, conclui.

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