A presença de um palco gospel oficial no Réveillon de Copacabana voltou a provocar debate público sobre assimetria religiosa e apagamento histórico das religiões de matriz africana na maior festa de virada do ano do país. Em um vídeo publicado nas redes sociais de Alexandre Isquierdo, Secretário de Estado, pastor e vereador licenciado do Rio de Janeiro, ele aparece cercado por jovens evangélicos da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), majoritariamente negros, celebrando a oportunidade de evangelização durante a virada. A ADVEC é uma igreja neopentecostal brasileira liderada pelo Pastor Silas Malafaia.
No registro, Isquierdo afirma: “Estamos em Copacabana, no Palco Leme, com a maior galera do Brasil, da ADVEC, num trabalho de evangelização, distribuição de panfletos, novo testamento.” Ao seu lado, um líder identificado como Lucão declara: “Estamos aqui evangelizando na maior virada do mundo, em Copacabana. Viemos ser igreja através de uma oportunidade que a prefeitura do Rio concedeu, que é um palco gospel. Estamos aqui marcando posição e declarando que o Rio de Janeiro é do Senhor Jesus, abençoando vidas e famílias. Obrigado, meu amigo Isquierdo, pelo apoio.”
As falas reforçaram críticas feitas nos últimos dias por lideranças de religiões de matriz africana, que apontam não a existência do palco gospel, mas a falta de equidade e reconhecimento das tradições afro-brasileiras historicamente ligadas ao Réveillon carioca. O babalorixá Márcio de Jagun afirmou: “Sempre disse que a discussão do ‘Palco Gospel’ nunca foi sobre ritmo ou estilo musical. É estratégia de dominação, prática de desrespeito e perseguição. Revoltante ver o dinheiro público, em um Estado laico, ser explicitamente utilizado para doutrinação religiosa.”
Na última semana de 2025, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, reagiu e foi duramente criticado ao chamar de “preconceituoso” o babalawô e professor Ivanir dos Santos, que havia criticado a assimetria no tratamento entre expressões religiosas na festa. Ivanir destacou que a questão não é a presença da música gospel, mas o apagamento de quem construiu simbolicamente a celebração: “Diversidade não pode ser apenas discurso; precisa se traduzir em reconhecimento concreto no espaço público.”
Ao defender a presença do palco Gospel, para muitas pessoas, o prefeito do Rio reforça sua aliança com Silas Malafaia. A relação entre Silas Malafaia e Eduardo Paes tem mais de 20 anos, marcada por apoio mútuo; Paes defendeu publicamente Malafaia em um culto recente, declarando que “mexeu com Silas, mexeu comigo”, e ressaltando a amizade apesar das broncas que costuma levar do pastor por suas decisões políticas.
Também é forte a relação entre Silas Malafaia e Jair Bolsonaro. Eles tinham uma forte aliança e influência a com Malafaia atuando como conselheiro e incentivador do ex-presidente, inclusive em momentos de crise e investigação, orientando-o sobre como lidar com o Judiciário e até criticando seus filhos. O que gerou áudios vazados e o indiciamento de ambos em investigações da Polícia Federal sobre obstrução da Justiça e tentativa de golpe, com Malafaia defendendo Bolsonaro e criticando o STF, mas também criticando a postura de Bolsonaro em certas situações.
Historicamente, a festa de Copacabana carrega forte ligação com as religiões de matriz africana. A cerimônia a Iemanjá na praia tem início no fim dos anos 1950, com articulação do sacerdote Tancredo da Silva Pinto, homem negro de grande relevância religiosa. A partir daí, tradições como vestir branco, jogar flores no mar e pular sete ondas, hoje práticas nacionais, inclusive entre quem não é adepto da Umbanda ou do Candomblé, consolidaram a identidade simbólica do Réveillon brasileiro.
Mesmo assim, apenas a religião evangélica contou com um palco próprio entre os 13 distribuídos pela cidade, segundo informou a Riotur. O evento reuniu cerca de 5,1 milhões de pessoas, entre moradores e turistas. Enquanto lideranças evangélicas comemoram a oportunidade institucional e política, representantes das religiões afro-brasileiras afirmam que a discussão central permanece: a festa que nasceu de suas tradições segue acontecendo sem elas no centro, levantando questionamentos sobre memória, reconhecimento e quem tem direito a ser plenamente representado no espaço público do Rio de Janeiro.









