Páscoa mais cara expõe desigualdade global e exploração na produção de cacau

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Neste domingo (05), a Páscoa é celebrada no Brasil, tendo o chocolate como um de seus principais símbolos culturais. A troca de ovos, barras e caixas de bombom movimenta o comércio, mas também revela um lado pouco visível: a persistência de trabalho infantil, condições análogas à escravidão e desigualdades profundas na cadeia global do cacau.

No Brasil, o problema não é inexistente. Dados da Organização Internacional do Trabalho apontaram que cerca de 8 mil crianças e adolescentes trabalhavam em plantações de cacau em 2018. No mesmo período, dezenas de trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão, evidenciando que a precarização também atinge a produção nacional.

O cenário é ainda mais grave na África Ocidental, principal polo produtor mundial. Países como Costa do Marfim e Gana concentram a maior parte da produção global e acumulam denúncias recorrentes de exploração. Estudos indicam que milhões de crianças seguem envolvidas no trabalho nas lavouras de cacau, muitas vezes expostas a atividades perigosas.

Ao mesmo tempo, a desigualdade na cadeia produtiva permanece. Enquanto países produtores exportam matéria-prima a preços relativamente baixos, nações industrializadas concentram os lucros com a venda do chocolate finalizado. Em 2022, o preço médio do cacau em grão foi de cerca de US$ 2.368 por tonelada, enquanto o chocolate pronto alcançou valores significativamente superiores no mercado internacional.

Essa desigualdade estrutural ficou ainda mais evidente com a recente crise do cacau. Problemas climáticos e sanitários reduziram a produção global, provocando uma disparada histórica nos preços. Em 2024, o valor da commodity chegou a registrar aumentos expressivos, impactando diretamente o consumidor final. No Brasil, o chocolate ficou mais caro, com alta registrada no índice oficial de inflação, além da redução no tamanho de produtos e mudanças na composição, incluindo maior uso de gorduras vegetais.

O país segue como um importante produtor, ocupando posição entre os maiores do mundo. Estados como Pará e Bahia lideram a produção nacional, enquanto o Brasil mantém capacidade significativa de abastecimento interno, apesar de ainda recorrer à importação em determinados períodos.

A lógica internacional, porém, permanece desigual. Grandes exportadores de chocolate, como Alemanha, Bélgica e Países Baixos, concentram valor agregado e lucros, mesmo dependendo da matéria-prima produzida em países periféricos.

A Páscoa de 2026, marcada por preços mais altos e mudanças no consumo, evidencia um paradoxo antigo: o chocolate se valoriza no mercado global, mas essa riqueza não chega a quem o produz. Sem alterações estruturais na cadeia produtiva, o lado amargo do chocolate segue sendo sustentado por exploração e desigualdade.

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Thayan Mina

Thayan Mina

Jornalista pela Faculdade de Comunicação (FCS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Atualmente mestrando pelo PPGCOM da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É músico e sambista.

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