Por Marina Lopes*
O feminismo chega na minha vida a partir do momento em que entro no mundo acadêmico. Por muitas vezes reflito se nos dias atuais, toda essa discussão e reivindicações não estariam mais restritas às pessoas que conseguem chegar à uma faculdade ou com maior acesso à informação. Qual seria o sentido prático do feminismo para uma mulher preta periférica, sem estudo, que luta pra colocar comida na mesa, para cuidar dos filhos, para se proteger das violências diárias?

A discrepância socioeconômica e o racismo, resquício dos 300 anos de escravidão à qual o negro foi subjugado, colocou a mulher negra muitas vezes fora das pautas das reivindicações feministas. Agora, já no século 21, onde o racismo, machismo e LGBTQIA+fobias têm sido mais discutidos, será que as formas de feminismo se tornaram mais representativas com as várias formas de ser mulher?
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Percebo em muitos coletivos feministas a falta de um retrato fiel das particularidades femininas, porque sim: ainda existem mulheres nas ruas passando por pobreza financeira e menstrual; mulheres sem estudo que dependem financeiramente de maridos agressores; mulheres trans que correm riscos diários de assassinato. Esse recorte de gênero, racial e econômico precisa estar dentro da militância. Quero ver esse movimento mais próximo das camadas sociais, de forma sensível, fácil e pratica.
Dentro dessa mesma reflexão, vejo quanto esse “feminismo acadêmico” precisa dar retorno a uma sociedade que está à margem desse academicismo. Os direitos das mulheres não pode ser somente uma pauta intelectual, branca, hétero/cisgênero e elitista. Cada mulher possui suas particularidades e essas diferentes camadas precisam ser levadas em conta ao ir para luta. Fica aí o questionamento se realmente o feminismo acolhe e defende todas nós.

Marina Lopes é jornalista e escritora
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