“O movimento funk significa pessoas pretas ousando serem felizes”, diz Rachel Xexéu, criadora da Casa Funk

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Rachel Xexéu é comunicóloga formada em publicidade e propaganda, com um MAB em Gestão de Negócios pela Universidade de São Paulo (USP), e uma especialização pela ESPM. Mas antes disso, Rachel é legado, filha de João Kalunga, um dos precursores do baile funk nas favelas. Inspirada por ele, resolveu dar continuidade ao trabalho do pai.

Dessa forma surgiu a Casa Funk, localizada no Rio de Janeiro. Uma instituição, fundada por Rachel, para promover o movimento funk e oferecer serviços à comunidade negra e periférica. Para ela, este universo possui um grande potencial. 

O movimento funk para mim significa pessoas pretas ousando serem felizes e donas de suas próprias narrativas. Funk é Exu, e o funk não se deixa classificar, só ele é capaz de falar por si, de se autodeterminar, além de abrir caminhos e conectar. E sobre conectar, podemos falar em conexão de gerações, gêneros musicais, raças, classe social, gênero”. 

E não é atoa que Rachel pense assim. Com uma infância frequentando, junto com seus pais, feijoadas no Clube Renascença – localizado no Andaraí desde 1958, e conhecido como um lugar de encontro de famílias negras -, e indo reuniões do Movimento Negro, sempre teve, desde cedo, muita referência de cultura negra. 

Meu pai me deu uma educação para estruturar toda a minha autoestima e me preparar para um mundo que tentaria me provar o extremo oposto de tudo o que ele e minha mãe me ensinaram sobre quem somos”, diz Rachel, que detalha ainda mais o universo de seu pai, um homem preto militante do Movimento Negro Unificado.

A carioca Rachel Xexéu criou a Casa Funk em 2018 /Foto: Divulgação

Temos mania de pensar que produção de intelectualidade vem da Academia, né? Mas quando entendemos o Movimento Negro, conseguimos ter a percepção produção de intelectualidade, cultura, pensamento crítico e seus desdobramentos, releituras ou apropriações”, conta Rachel, que continua: 

O Baile, ele conta sempre, era não só entretenimento, mas também um momento de conexão de idéias, ideais, comportamento, um pouco de alívio também, e um lugar seguro da tensão que era a ditadura para pessoas pretas, que é pouco comentada. E o funk no Brasil chega nesse período. Então o baile eram pessoas pretas usando o entretenimento como forma de conscientização dos seus”, explica. 

A partir disso, Rachel Xexéu conta o impacto dessa vivência em toda a sua criação, e na construção do seu entendimento sobre a população negra.

Isso influencia o meu olhar para fora do que a superficialidade nos traz sobre o funk e a percepção de que antes de vir do Miami Bass, Alemanha como alguns gostam de dizer, ou Jamaica, ele vem da África e ele faz um caminho até chegar aqui conectando as diásporas. Então eu entendo o funk como um reencontro de povos africanos e afrodiaspóricos que se entendem enquanto um povo livre e alegre”. 

Para ela, “não tem nada mais alegre e contagiante do que um tamborzão”, e por isso ela luta contra a criminalização imposta pela sociedade, que acredita ser motivada por conta das “vozes que ousam contar histórias”. 

E então Rachel seguiu, com toda essa bagagem, em busca de outra formação: a acadêmica. Apesar de ter escolhido, inicialmente, o jornalismo – influenciada por Glória Maria, mulher que sempre admirou – mudou os rumos no meio do curso, e migrou para a publicidade “por entender a propaganda como uma ferramenta que molda o comportamento da sociedade, que vende imagem”. 

Mesmo que dentro de casa a imagem do povo preto era positiva, do muro para fora a imagem propaganda dizia o contrário. “Então resolvi me tornar publicitária para propagar todas as coisas boas que nossos mais velhos me ensinaram que somos e que a mídia não nos conta”. 

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Casa Funk 

Rachel Xexéu criou, em 2018, o Instituto Funk Rio,  que hoje é a Casa Funk, de forma muito natural, segundo ela. E com alguns objetivos bem definidos. 

Ela é o resultado do que eu quero deixar de legado construído a mil mãos, para jovens pretos que vêm depois de mim. Assim como nossos mais velhos, que trilharam um caminho bem mais árduo para hoje podermos dar continuidade e tentar fazer dessa trajetória um caminho cada vez mais doce e afetuoso”. 

Segundo ela, o espaço que funciona hoje no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB) – no bairro da Gamboa (RJ), se propõe a ser um espaço seguro. “A Casa Funk é sobre afeto na narrativa da cultura preta, sobre nos olharmos enquanto potências e vozes que têm total capacidade de contar uma história livre de qualquer inteligência alienada às nossas necessidades, que monetiza nossas histórias de dores”, explica Rachel, que continua a definir a iniciativa:

É sobre a necessidade de sermos a voz que guia o olhar sobre a nossa cultura, nossos corpos, e não nos reduzirmos ao período escravocrata. Existe uma história antes e depois da escravidão e nós precisamos falar sobre isso. Construir nossa história falando sobre nossa cultura e nossas vitórias, é urgente, e a Casa Funk é sobre a urgência de narrativas positivas sobre nós mesmos”. 

Com o objetivo de garantir o direito à cidade aos jovens, e dar-lhes o acesso a aparelhos culturais, a iniciativa oferece uma variedade de cursos e atividades culturais. “Nossas vagas são voltadas para jovens pretos e periféricos, e nosso desejo é que esses tenham o entendimento de que a cidade os pertence”. As inscrições, segundo Rache, podem ser feitas acessando o perfil da Casa Funk no Instagram e preenchendo o formulário disponibilizado na bio. 

A publicitária que se mobiliza em prol da comunidade negra e periférica, e do movimento funk, deseja que outros projetos apareçam com o mesmo intuito de promover um outro olhar sobre esses grupos e “projetar imagens que impactam a subjetividade de sociedade em relação a produção intelectual preta, sobretudo favelada e que essa intelectualidade preta favela crie uma rede de conexões a fim de abrir caminhos no mundo do entretenimento, cultura e arte”.

Para o futuro, Rachel Xexéu pensa grande. “Nosso próximo projeto é transformar nossa pesquisa da Casa Funk em um festival de Black Music na Marquês da Sapucaí, no Rio de Janeiro, no mês da consciência negra, e contar a história do Brasil através da música preta trazendo um outro ponto de vista. A história contada e cantada pelo povo preto. Uma história que não encontramos nos livros mas que está nos sambas, jongos, rap e funk”.

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Bárbara Souza

Bárbara Souza

Formada em Jornalismo em 2021, atualmente trabalha como Editora no jornal Notícia Preta, onde começou como colaboradora voluntária em 2022. Carioca da gema, criada no interior do Rio, acredita em uma comunicação acessível e antirracista.

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