“Jornalistas brancos preferem fontes brancas e o círculo se fecha”, afirma professor da USP

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Em entrevista ao UOL, Dennis de Oliveira ressaltou que a imprensa tem dificuldade em reconhecer seu racismo

O doutor em comunicação e professor da USP, Dennis de Oliveira – Foto: Marcos Santos

O doutor em comunicação e professor da Universidade de São Paulo (USP), Dennis de Oliveira enfatizou, em entrevista ao site UOL, que a falta de representatividade dos profissionais negros são transformados em números. Um estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), mostrou que apenas 22% dos jornalistas de carteira assinada são negros. 

Ainda segundo Dennis, o jornalismo brasileiro vive em uma “bolha de fontes” – ou seja, ouvirem os fatos, opiniões, visões e versões sempre de figuras frequentes ou validadas por um circuito de relacionamentos dos jornalistas brancos. “Esses profissionais vivem um ‘pacto narcísico da branquitude’: jornalistas brancos preferem fontes brancas e o círculo se fecha”, afirmou.

Outras vozes

O professor da USP reitera que é de suma importância ouvir várias vozes em diferentes temas de cobertura, como cultura, economia, política, etc. Ainda segundo ele, abrindo esse leque, mudaria a lógica atual, gerando oportunidades para intelectuais negros, além de proporcionar visão mais plural dos acontecimentos. “É muito grave a ‘branquitude do jornalismo’ não contribuir para o déficit democrático de pessoas negras e periféricas. O maior problema do racismo brasileiro é o fato de as instituições terem dificuldade de reconhecê-lo. Há denúncias de casos de preconceito explícito, entretanto, não discute a presença majoritariamente branca nas redações (ainda que, por conta das ações afirmativas, tenhamos vários jornalistas negros formados) e nas fontes”, alertou.

Programas televisivos

Nos meses de julho e agosto, o programa Roda Viva, da TV Cultura, convidou o também professor, escritor e advogado, Silvio Almeida. Pouco depois, foi a vez do rapper e produtor cultural, Emicida. Segundo Dennis, isso é resultado da pressão dos movimentos negros e antirracistas que eclodiram depois do assassinato do segurança George Floyd, em Minnesota (EUA), em maio deste ano. O professor ressalta ainda que nem sempre houve espaço para pessoas negras no programa. De acordo com um levantamento da Lójúkojú (ação antirracista de divulgação e produção de dados para combater o racismo), entre 2016 e 2020, de todos os 205 entrevistados do programa Roda Viva, apenas 13 eram negros. “O jornalismo brasileiro vive em uma bolha de fontes. Os jornalistas, a maioria brancos, vivem em determinados circuitos de relacionamentos, em geral, próximos a estas instâncias de poder e reproduzem isto na escolha das suas fontes. Praticam o pacto narcísico da branquitude”, afirmou.

O rapper Emicida foi um dos convidados dos Roda Viva no mês de julho – Foto: Reprodução/TV Cultura

Na bancada

Outro ponto analisado pelo professor foi em relação aos entrevistadores que compõem as bancas de entrevistadores do Roda Viva. Segundo ele, O jornalismo está criando uma nova “guetificação” temática e de permissão para negras e negros. “Estes entrevistadores negros são chamados somente quando os convidados são pessoas negras que vão tratar de assuntos relacionados à temática racial. E vou além: quantos chefes de redação e diretores de programas, como o Roda Viva, são negros? Novamente entramos na branquitude dos espaços de poder”, finalizou. 

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Igor Rocha

Igor Rocha é jornalista, nascido e criado no Cantinho do Céu, com ampla experiência em assessoria de comunicação e escritor nas horas vagas. Editor e coordenador regional do Notícia Preta

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