Embora representem pequena fatia da arrecadação, IPVA e IPTU impactam diretamente o orçamento de quem vive com renda apertada
No Brasil, o início do ano costuma escancarar uma desigualdade que atravessa a política fiscal e atinge de forma diferente quem vive nas periferias, nas favelas e nos centros urbanos mais ricos. É nesse período que vencem impostos como o IPVA e o IPTU, tributos sobre propriedade que, embora representem uma parcela menor da arrecadação total do país, têm impacto direto e imediato no orçamento das famílias, especialmente daquelas que vivem com renda apertada.
Segundo o Tesouro Nacional, a carga tributária brasileira alcançou 32,3 por cento do PIB em 2024, mantendo a tendência de alta. No entanto, essa carga não se distribui de forma equilibrada. A maior parte da arrecadação vem de impostos sobre consumo, como ICMS, PIS e Cofins, que pesam proporcionalmente mais sobre os mais pobres. Já os impostos sobre patrimônio, como IPVA e IPTU, representam menos de 2 por cento do PIB, mas se tornam altamente visíveis quando concentrados no começo do ano.
O IPVA, imposto estadual cobrado de proprietários de veículos, arrecadou cerca de 86,6 bilhões de reais em 2024, segundo dados do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação. Em 2026, estados mantêm calendários que concentram os vencimentos entre janeiro e março, com correções nos valores venais dos veículos alinhadas à inflação e ao mercado automotivo. Na prática, isso significa que mesmo carros populares seguem gerando cobranças que consomem uma fatia relevante da renda mensal de trabalhadores que dependem do veículo para trabalhar, como motoristas de aplicativo, entregadores e pessoas que moram longe dos centros urbanos.
Já o IPTU, principal imposto municipal sobre imóveis urbanos, arrecadou aproximadamente 73 bilhões de reais em 2024, segundo dados da Secretaria do Tesouro Nacional compilados pelo sistema MultiCidades. Embora seja um tributo que, em tese, poderia atuar como instrumento de justiça fiscal, cobrando mais de imóveis mais valorizados, a realidade urbana brasileira impõe distorções. Em bairros periféricos e territórios negros, imóveis muitas vezes não estão regularizados ou têm valores venais subestimados, o que reduz a arrecadação local e limita a capacidade dos municípios de investir em infraestrutura, saneamento e serviços públicos.

Ao mesmo tempo, famílias negras e de baixa renda que conseguem acessar algum patrimônio formal acabam sentindo o peso desses impostos de forma proporcionalmente maior. Dados da Receita Federal mostram que os brasileiros mais pobres comprometem uma parcela maior da renda com tributos do que os mais ricos, justamente porque sua carga tributária está concentrada em impostos indiretos e em cobranças fixas, que não levam em conta a capacidade real de pagamento.
No início do ano, essa desigualdade se torna ainda mais visível. Famílias que possuem um veículo e um imóvel, muitas vezes fruto de anos de esforço e endividamento, enfrentam a soma de IPVA, IPTU, taxas obrigatórias e outras despesas sazonais, como material escolar e transporte. Para quem vive com renda instável, essa combinação pode significar atraso no pagamento, juros, multas e, em casos extremos, inadimplência.
O contraste fica evidente quando se observa que quem não tem patrimônio formal, realidade de grande parte da população negra no Brasil, não deixa de pagar impostos. Pelo contrário, paga diariamente, com tributos embutidos nos preços de alimentos, gás, energia, transporte e serviços essenciais. Estudos oficiais indicam que os dez por cento mais pobres comprometem proporcionalmente mais da renda com tributos do que os dez por cento mais ricos, reforçando o caráter regressivo do sistema tributário brasileiro.
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Assim, a pergunta sobre quem paga mais no início do ano não pode ser respondida apenas em valores absolutos. Em reais, pagam mais aqueles que possuem imóveis e veículos mais caros. Mas, em termos de peso no orçamento, a conta recai com mais força sobre trabalhadores, famílias negras e moradores das periferias, que destinam uma parcela maior da renda para cumprir obrigações fiscais em um sistema que ainda tributa pouco a renda e o patrimônio dos mais ricos.
No fim das contas, IPVA e IPTU funcionam como um retrato concentrado de uma desigualdade estrutural. Enquanto o Estado arrecada, o impacto real da cobrança revela quem tem menos margem para pagar e quem segue sustentando um modelo tributário que ainda cobra mais de quem tem menos.









