Estudo aponta que negros sofrem mais punição que os brancos

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Segundo a pesquisa, 72% das prisões são de pessoas negras

Ativistas da Anistia Internacional protestam em frente à Igreja da Candelária Foto: Fernando Frazão

Por Fernanda Alexandre e Igor Rocha

Um levantamento, realizado pelo Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (SP), mostra que as pessoas negras sofrem mais punição que as brancas. Por três anos, os pesquisadores investigaram o modelo de policiamento ostensivo e a relação racial nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Distrito Federal e Rio Grande do Sul.

Segundo a coordenadora da pesquisa, Jacqueline Sinhoretto, as pessoas negras são alvo mais frequente de uso letal da força. “A depender do ano e do distrito, a chance matemática de uma pessoa negra ser morta pela polícia é de três a sete vezes maior do que a chance de um branco receber o mesmo tratamento”, comentou.

No estado de Minas Gerais, os crimes de maior relevância registrados são contra pessoa, patrimônio e entorpecentes. O número de pessoas negras presas em flagrante por esses crimes totaliza 67,4%, contra 66,4% para os não negros. Focando na capital, Belo Horizonte, a desigualdade aumenta, levando em consideração os mesmos crimes. Segundo o levantamento, 72,3% de todas as prisões são de pessoas negras, enquanto as não negras são de 67,1%. Dos 28 oficiais entrevistados para o estudo em Minas Gerais, apenas 1 se auto definiu negro.

A pesquisa constatou que boa parte dos policiais de Minas e São Paulo não vê racialização no agir policial como algo institucional, mas sim como sendo um problema social. Para eles, a instituição não promove desigualdade através das características e processos do policiamento.

Em seminário realizado na última quarta-feira (21), para apresentação dos dados da pesquisa, Juliana Leme, Cabo da Polícia Militar de Minas Gerais e estudante de Política Social pela UFF, foi enfática ao dizer que, no dia a dia da polícia, a questão racial não é debatida. “A ideia de racismo dentro da corporação é que ele não existe, entre oficiais e praças, eles atribuem a questão racial à sociedade. Segue-se a lógica que o foco é o crime, o foco é a apreensão de drogas, armas, meta, produtividade e as relações sociais, relações humanas. Esse diálogo com a sociedade vai ficando em segundo plano”, afirmou.

A cabo da PMMG, Juliana Leme, diz que racismo não é um assunto debatido nas corporações – Foto: Divulgação

Contraponto

Já para o doutor em sociologia, Luis Flávio Sapori, o policiamento ostensivo esteriotipa o jovem negro da periferia. como um suspeito a priori, um potencial criminógeno. “Isso é inegável. A pesquisa mostra isso nitidamente e a polícia não pode negar. Isso deveria ser discutido, deveria pautar o debate interno por que é equivocado tratar o jovem negro da periferia como um potencial criminoso, como se todo pobre, todo negro, tivesse uma predisposição para o crime”, ressaltou. 

O sociólogo ainda enfatizou que a repressão seletiva gera injustiça e exclusão social. Além disso, Sapori defende que os policiais precisam ter voz, principalmente, pela quantidade de negros nas corporações. “Os policiais devem ser ouvidos, porque muitos deles são negros. A polícia é uma instituição que os negros têm muita inserção e muitos policiais negros são agentes desse estereótipo racial. Então, isso tem que ser discutido, não há dúvida”, sinalizou. 

Racismo histórico

A advogada e Especializanda em Direitos Humanos e relações Étnicos Raciais, Cristina Tadielo, ressalta que, historicamente, a sociedade brasileira se estruturou na concepção racista e institucionalizou práticas de segregação e discriminação principalmente para a população negra, sitematizando as práticas racistas. “O Brasil apresenta um compilado de leis que, na literalidade, poderiam parecer humanitárias, todavia as questões eram, e são, puramente econômicas e de manutenção de poderes. Assim, as leis foram efetivos decretos de segregação e discriminação e posturas sociais”, comentou. 

Ainda de acordo com Tadielo, o Poder de polícia sempre foi voltado para a “manutenção do status “quo” de quem segue mandamentos da cartilha europeia, branca e cristã desde os tempos coloniais e que impera até a atualidade”, afirma a jurista que completou. “A prática institucionalizada do racismo, nestas concepções pré-definidas, radicalizadas e fundadas, a mesma dos tempos coloniais, é a que escolhe ‘quem’ vai ser preso e ‘quem’ vai morrer”, finalizou.

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