Familiares de Pedro Gonzaga publicam carta desmentindo que jovem seria usuário de drogas

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Neste domingo (17) milhares de pessoas se reuniram em diferentes estados do Brasil com um único objetivo: garantir o direito à vida da população negra. Em São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Fortaleza, Mato Grosso do Sul e Rio Janeiro negros e antirracistas manifestaram contra a morte de Pedro Henrique Gonzaga, um jovem de 19 anos estrangulado até a morte por um segurança de um supermercado no Rio de Janeiro na última semana.

Ato em repúdio ao assassinato de Pedro Gonzaga No Rio de Janeiro Foto: Caio Oliveira

O ato que ocorreu nem frente ao local do crime, o Supermercado Extra da Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, reuniu cerca de 3 mil pessoas, segundo os organizadores da festa. A manifestação, que durou aproximadamente 4 horas, aconteceu de forma pacífica e organizada. Em um carro de som, lideranças de movimentos e políticos negros discursaram. Logo após os manifestantes marcharam até a porta do mercado que rapidamente fechou as portas com medo de ser invadido. Em nenhum momento o grupo tentou entrar no local, os homens deitaram no chão, fazendo referência ao corpo de Pedro, foram ditas palavras de ordem e logo após todos deram as mãos formando um grande círculo no estacionamento do Extra. Era um abraço simbólico à família do jovem morto.

Esse abraço foi sentido de longe pela família de Pedro que preferiu não participar do ato, mas procurou o Notícia Preta para dizer quem realmente era Pedro Henrique Gonzaga. Uma prima de jovem, que preferiu não se identificar, disse que sua tia, mãe de Pedro, e toda a família está muito abalada e que o ato de hoje foi importante para todos os familiares e amigos.

Ato em repúdio ao assassinato de Pedro Gonzaga No Rio de Janeiro Foto: Caio Oliveira

Em mensagens trocadas entre o Notícia Preta e a prima de Pedro por Whatsapp, a moça diz: “Eu fiquei arrepiada assistindo aos vídeos e vendo as imagens publicadas. Parabéns por terem conseguido organizar tanta gente em prol de uma causa tão nobre e que nunca deve ser esquecida pelo Brasil e por nenhum brasileiro. Continuem na caminhada! Vocês têm todo poder do mundo”

A pedido da família publicamos a carta na íntegra:

Pedro, tenho lido comentários maldosos em relação a você nas redes sociais e não hesito em rebater tudo que fere a sua memória. Afinal, você não era bandido, não era ladrão, não era usuário de drogas e, sobretudo, não era deficiente mental. Nenhum dos que emite opinião te conheceu, portanto, as coisas pelas quais você teve de passar, a sua integridade, a sua bondade, o seu coração puro são desconhecidas a eles. E o que mais me deixa irada é a forma prepotente com que eles usam as palavras. Você era gentil e preocupado com todo mundo, fosse colega, amigo ou conhecido, mesmo sendo bem verdade, também, que você era bem esquentado às vezes e explodia. Todavia, após refletir, você se reaproximava e pedia perdão, admitindo sua culpa – um ato muito nobre numa era tão egoísta e orgulhosa como a nossa.

Por termos crescido juntos, nossa relação de anos passou por inúmeros percalços, mas eu sempre te perdoava porque meu amor sempre superavam todas as situações passadas. Eu sempre te defendi e vou continuar defendendo, porque eu te conhecia como ninguém. Felizmente, embora não gostasse, compartilhava até suas fraquezas e sonhos comigo, então eu sei quem foi você. Aliás, nesses anos de relação, eu pude colecionar memórias que jamais serão apagadas.

Me lembro de quando eu e você fomos ao Extra, local em que você foi assassinado, a pedido da sua mãe, a fim de comprar algumas coisas para receber sua irmã, que estava voltando para o RJ naquele dia. Fomos, compramos e organizamos a pequena comemoração. Você queria sair, mas ficou em casa à espera dela, demonstrando aquilo que sempre foi: um cara ligado à família. Você era um ser humano rico em talento: dançava, cantava, compunha e sonhava em se tornar um MC famoso. Além disso, usava isso de forma sadia. Inclusive, deu aula de dança, certa vez, numa comunidade ao lado da Barra, gratuitamente – e falava disso com brilho nos olhos. Você fez sua história e deixou legado. Parabéns pela sua caminhada, por nunca ter desistido da sua vida frente às coisas por que você precisou passar. Seu sorriso sempre esteve presente, mesmo na tristeza. Nunca vou me esquecer de você me abraçando, dizendo que me amava.

Você é eterno, meu primo, meu amigo

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Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, fundadora e CEO do portal Notícia Preta e podcaster do Canal Futura. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

1 Comment

  • Alguém da familia poderia explicar melhor o que aconteceu naquele dia , porque ele foi ao encontro do segurança ? O que aconteceu na versão de quem estava lá realmente e que não seja o segurança.

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