Pesquisa acompanhou durante 10 anos 121 mulheres portadoras de câncer de mama de dois hospitais de Baltimore, Maryland (EUA)
O estudo ‘Estressores multiníveis e imunidade sistêmica e tumoral em mulheres negras e brancas com câncer de mama’ publicado na revista acadêmica JAMA (Journal of the American Medical Association) e realizado nos Estados Unidos, revela uma relação entre estresse crônico, discriminação racial e isolamento social ao aumentos de metástase do câncer de mama em mulheres negras.
Por 10 anos, a pesquisa acompanhou e analisou 121 mulheres com a doença, sendo 56 delas negras e 65 brancas. O estudo identificou o racismo estrutural como um dos fatores para o crescimento de inflamações no organismo e ao desenvolvimento de tumores, e que a discriminação racial está relacionado ao estresse crônico, deixando as pessoas presas em um ciclo de preocupação, vigilância e pensamentos repetitiivos sobre experiências negativas vividas.
De acordo com os dados, o estresse pode influenciar diferentes processos biológicos no corpo, como a formação de novos vasos sanguíneos e a resposta do sistema imunitário. Essa relação foi mais destacada entre as mulheres negras.

“A discriminação em mulheres negras teve o maior impacto na ativação de genes (DEGs) ligados à exposição ao estresse. No total, 902 desses genes foram associados à discriminação, e 45 deles apareceram tanto em tecidos saudáveis quanto em tumores”, destaca o estudo.
Os pesquisadores descobriram que uma proteína liberada por células do sistema imunitário, que contribui na propagação do câncer de mama, estava em níveis mais altos entre as mulheres negras que participaram do estudo. Além disso, viver em áreas desfavoráveis também estava associado a um aumento de substâncias no sangue, que pode enfraquecer a defesa do corpo contra doenças.
A pesquisa publicada na revista JAMA também ressalta a importância do apoio social, como um dos fatores de alterações positivas nas citocinas produzidas por células, que aumentam a função imunológica. Como resultado, os cientistas descobriram que a biologia pode atuar como um mediador das disparidades de saúde no câncer.
Essas descobertas podem contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias de prevenção e políticas de saúde pública mais eficazes.
Saúde da população negra no Brasil
Dados do Ministério da Saúde mostram que 80% dos usuários do sistema público são negros. Mesmo dependentes do SUS (Sistema Único de Saúde), existe uma dificuldade de acesso aos serviços, o que reflete em diagnósticos tardios. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), as mulheres negras têm 57% mais chances de morrer com câncer de mama em comparação às brancas, porque chegam ao SUS com o diagnóstico mais avançado.
Como forma de promover a equidade racial na saúde e combater práticas discriminatórias e desigualdades estruturais no SUS, o Ministério da Saúde aprovou em fevereiro o Plano de ação da Estratégia Antirracista para a Saúde, que prevê a implementação de políticas públicas de ações afirmativas. A iniciativa busca, através de parcerias com as instituições de saúde, fortalecer o suporte técnico e científico para implementar ações previstas e estratégicas.
Leia também: Ministério da Saúde lança painel para monitorar saúde da população negra