Empresária que inaugura primeira loja exclusiva de brinquedos afrocentrados no Rio pensa em abrir loja também em São Paulo: “A indústria ainda não acordou para a potência que a gente tem de compra”

Pelo inbox, uma mensagem questionava a possibilidade de uma boneca Dandara branca. A solicitação foi feita na rede social da ‘Era Uma Vez o Mundo’, empresa que fabrica e comercializa brinquedos afrocentrados e que inaugura sua primeira loja física neste sábado, 16, no Centro do Rio. Feita de tecido, a boneca negra Dandara é o principal produto da empresa e tem o mesmo nome da mulher de Zumbi dos Palmares. Além dela, os bonecos Zambi e Pequeno Príncipe Preto, e os livros de tecido Erê, Mariana e Super Black Power têm a proposta da representatividade. Neles, crianças negras podem se ver enquanto brincam.

Apesar de querer equilibrar uma balança desigual no Brasil, onde apenas 7% das bonecas fabricadas são negras — segundo estudo feito ano passado pela ONG Avante por meio da campanha “Cadê Nossa Boneca?” — a empresária Jaciana Melquíades tem enfrentado críticas por quem entende que a ‘Era Uma Vez o Mundo’ deveria fabricar também bonecas e bonecos brancos.

Jaciana Melquíades com o marido e sócio Leandro Melquíades

“A gente vem se posicionando no mercado como uma empresa que faz brinquedos, todos tendo a criança negra como protagonista. Nossos personagens dos livros são todos negros, nossos bonecos são negros, quando a gente procura uma personalidade para transformar em boneco ou boneca, são pessoas negras porque entendemos que existe essa falta de representatividade. A indústria não fabrica bonecos negros. Só brancos. E não existe um questionamento à direção dessas empresas por parte dessas pessoas que me criticam e criticam a Era Uma Vez o Mundo do porquê de não fazerem bonecas diversas”, declara a empresária, ressaltando que a loja é a primeira no país que fabrica e comercializa exclusivamente bonecas e bonecos negros.

Historiadora de formação, Jaciana começou com a proposta dos bonecos negros logo após o nascimento do filho, Matias, em 2011.  Sua preocupação sempre foi a de como o menino iria se ver. Antes disso, ela e o marido, o também historiador Leandro Melquíades, que é seu sócio no empreendimento, já faziam livros de panos pintados à mão. Mas a produção afrocentrada virou a marca da sua empresa.

“A minha motivação acaba sendo sempre o Matias. Foi o primeiro pensamento que me fez  tentar fazer alguma coisa em vez de reclamar das empresas. Nosso objetivo na Era Uma Vez o Mundo é exatamente tentar equilibrar a balança da diversidade. Se a grande indústria não oferece esses bonecos e essas bonecas para 54% da população brasileira que é negra, eu cansei de reclamar. Então, agora eu vou fazer e tentar. Estou começando com uma sementinha, uma loja pequena para que essa semente cresça e, muito em breve, a gente consiga equilibrar essa balança de produtos que representem também as crianças negras, mas que não são feitos só para crianças negras. São feitos para todas as crianças”, avalia Jaciana. 

Toda a repercussão em torno da inauguração da primeira loja física da Era Uma Vez o Mundo representa, para Jaciana, uma carência por produtos afrocentrados. Ela afirma que a grande indústria ainda não percebeu que esse público pode, sim, gerar lucro:

A boneca Dandara é o principal brinquedo da ‘Era Uma Vez o Mundo’

“Hoje ainda tem uma falta de brinquedos afrocentrados. Tanto que uma notícia de que existe um lugar que venda bonecas negras ou o lançamento de uma boneca negra faz com que essa boneca esgote muito rapidamente. As pessoas estão ávidas, desejosas por comprar esses brinquedos, por terem produtos que as represente e a indústria ainda não acordou para a potência que a gente tem de compra. Nosso desafio é fazer as pessoas perceberem que um empreendimento voltado para a temática afro é rentável”.

O atelier da Era Uma Vez o Mundo fica no Santo Cristo, Zona Central do Rio de Janeiro, e a sua primeira loja física será no Centro. Mas Jaciana tem planos de construir um atelier no bairro onde cresceu e onde tudo começou: Vila Jolá, município de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Jaciana se mudou para o município do Rio de Janeiro em 2015, mas nunca abandonou a ideia de transformar a região com sua empresa:

“É o foco dos meus esforços. Levar a fábrica para Belford Roxo é um projeto muito grande e muito caro. Então, a estratégia de pensar essa loja é conseguir aumentar o volume de vendas com ponto fixo e gerar um caixa para ativar um grande atelier, que a gente chama de fábrica, em Belford Roxo. Aí sim começar a fabricar essas bonecas com mão de obra local, treinada por nós, e que vai conseguir viver perto do trabalho, para conseguir criar os filhos com dignidade e com uma qualidade de vida melhor do que a de pessoas que precisam se deslocar de Belford Roxo para o Centro da cidade para trabalhar”.

Comemorando a inauguração da primeira loja física, Jaciana lembra de quando ela e Leandro pensaram em encerrar as atividades da empresa. Foi nesse período que decidiram se inscrever no Programa Shell Iniciativa Jovem 2018. Ao todo, foram 700 empreendimentos inscritos, 180 selecionados e 80 que participaram efetivamente do programa. A Era Uma Vez o Mundo foi premiada em terceiro lugar.

Matias inspirou os pais a produzirem brinquedos afrocentrados

“A gente colocou na balança e se inscreveu no programa para tentar reavaliar nosso processo como empreendimento. Foi um laboratório, uma experiência muito incrível, porque pudemos repensar uma série de estratégias que estávamos adotando e, com a ajuda dos profissionais de lá, conseguimos nos ver como uma empresa que faz as coisas corretamente e entender como  é que fazer essas coisas corretamente poderia fazer com que crescêssemos”, ressaltou. 

Para o futuro, além da fábrica em Belford Roxo, Jaciana quer alugar uma loja maior no Rio e, em 2020, abrir a primeira loja da Era ma Vez o Mundo em São Paulo.

“São Paulo hoje representa o nosso maior público consumidor. Então, tendo uma loja no Rio e outra em São Paulo, a gente acha que consegue ficar grande do tamanho que nossas crianças merecem”, conclui a empresária. A inauguração da loja física será neste sábado, 16, das 11h às 14h, na Rua dos Andradas, 22, no Centro do Rio

Cintia Cruz

Formada em Jornalismo pela PUC-Rio, em 2008, é mãe do Benício, moradora da Baixada Fluminense e tem 36 anos. Trabalhou na Rádio MEC, trabalhou como assessora de imprensa, escreveu para a Revista Raça Brasil e foi freelancer do Canal Futura. Desde 2010, é repórter do Jornal Extra.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: