Em meio à criminalização da periferia, autor negro aposta em Bienal da Quebrada: “As pessoas brancas não estão acostumadas com a ideia de que quem escreveu o livro que elas tanto gostam não é um homem branco de barba”

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Vontade é o que não falta: conheça Mateus Santana, criador do evento que promete revolucionar o acesso à literatura, no Brasil 

Nascido e criado em Samambaia Norte, periferia de Taguatinga- região administrativa do Distrito Federal- Mateus Santana se viu, desde cedo, prejudicado pela precariedade da educação pública. O jovem, que pouco aproveitou o ensino “agressivo” oferecido em sua escola, mal conheceu autores da literatura brasileira durante o colegial; tal fato, segundo Mateus, em decorrência da inexistência de bibliotecas públicas em sua favela, aliado à quase nula existência do Estado no processo de incentivo à leitura. “Como toda periferia, a gente não recebe a educação adequada. É uma educação escassa e, em consequência disso, muita coisa que era pra gente ter recebido nesse período escolar a gente não recebe ou então chega na gente de uma maneira muito agressiva”, conta.

A ideia de criar a Bienal do Livro da Quebrada surgiu ao passo que Mateus foi percebendo a potencialidade criativa da favela e a necessidade do morro acessar obras literárias, bem como o asfalto. Após um Tweet que rendeu feedbacks positivos relacionados ao tema, Mateus passou a escrever o projeto em editais e, hoje, conta com parceiros por todo o país. A meta, segundo o autor, é criar uma cadeia produtiva em larga escala, ao abrir espaço para que a periferia se comunique por meio de múltiplas formas “Por não termos a construção literária convencional, muitos de nós não escreve, mas a gente se comunica através de diversas manifestações artísticas, seja pela dança ou pelo teatro, por exemplo.”

Embora ainda não haja financiamento, Mateus conta que o objetivo é ocupar as periferias de todo o Brasil, começando pelo Nordeste. Por meio de painéis, oficinas, debates e workshops o plano é atingir pessoas que não recebem literatura de maneira natural “O foco é atingir o moleque na escola e também a mãe dele que envelheceu e não teve acesso. É democratizar a literatura para pessoas que não são beneficiadas por isso”, afirma.

Com a internet, Mateus percebeu que há diversos autores negros produzindo literatura, porém poucos têm o privilégio de terem uma editora que publique suas obras. Para Mateus, tal questão reflete o racismo no mundo editorial “Durante décadas, o padrão de escritores nas editoras segue o mesmo: é o homem branco, classe média e do eixo Rio- São Paulo. Várias pessoas produzem literatura e mesmo com essa pluralização o mercado literário continua racista”.

Para além do racismo, Mateus acredita que a literatura clássica é uma forma de, linguisticamente, afastar o público periférico “Historicamente falando, essa linguagem era uma maneira de separar quem poderia ler e quem não poderia e, ao passar das décadas, aquela literatura ainda é uma maneira de dizer que está mostrando, mas que não é pra gente”. Por isso, com o intuito de otimizar o acesso à leitura para a população periférica, a organização do evento está trabalhando no projeto de arrecadação e doação de livros.

Para Mateus, o tamanho não importa: pode ser um grande evento ou ocorrer em uma salinha. O que vale, segundo o autor, é mudar a visão de moradores da periferia sobre a literatura. Ao entender os mecanismos de exclusão, Mateus segue ocupando lugares de prestígio- tendo em vista a necessidade de levar a voz da periferia a esses espaços- ao mesmo tempo em que faz história na favela ao confrontar o clássico com o contemporâneo, mostrando as diversas maneiras do fazer literário.

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Ana Paula Souza

Estudante de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e trabalha como jornalista da Agência Narra, cuja sede é o Observatório de Favelas.

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