Cida Reis, mulher, negra e cineasta

Cida Reis fala sobre sua carreira, a negritude nas telas e seus projetos no audiovisual

Graduada em história, pós graduada em Administração Pública e cineasta, Cida Reis conta com mais de 20 anos como servidora pública e 14 anos como produtora e documentarista. Iniciou sua carreira no cinema como coordenadora de pesquisa  no Centro de Referência Audiovisual da Prefeitura de Belo Horizonte (CRAV), no ano de 2001 com a incumbência de desenvolver as pesquisas de imagens e depoimentos sobre, Religiosidade Afro-brasileira, Memória do Operariado e Memória da Música, em Belo Horizonte.

Segundo a cineasta, optou pelo cinema documental por questões conjunturais, uma vez que o trabalho no CRAV era voltado para pesquisas e registros e além disso, o cinema de ficção e animação exige mais recursos financeiros do que o cinema documental. Reis ainda salienta que as políticas públicas de incentivo ao audiovisual, no Município e Estado, sempre foram muito limitadas e fechada a um pequeno grupo.

Cida Reis . Mulher negra e cineasta. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Sua inspiração para argumentos surge a partir de várias situações como leituras – contos, romances, poesia –, narrativas orais do povo negro,  situações como a morte da juventude negra, a intolerância religiosa e os desafios de sobrevivência no cenário atual. Seu objetivo é “Recontar uma história numa outra perspectiva, como uma revisão historiográfica”, revelou.

Cida ressalta ainda que Ousmane Sembene, Akira Kurosawa e Jeferson De foram alguns dos diretores negros que a influenciou, no início de carreira, mas, atualmente, se inspira nxs novxs cineastxs negrxs brasileirxs. “A principal influência da minha geração, com pouco dinheiro, foi a TV. O cinema era um entretenimento pouca acessível: pelo preço e pela localização geográfica. A partir das leituras de textos de Bell Hooks, principalmente o “The Oppositional Gaze: Black Emale Spectators” (O olhar opositivo – a espectadora negra), pude identificar a minha falta de motivação e incômodo, nas poucas vezes que fui ao cinema notava a ausência de negros e, principalmente, das mulheres negras nos filmes” revelou.

A cineasta esclarece que, com o surgimento das fitas VHS, a diversão do final de semana era assistir filmes norte-americanos, com a presença de atores negros como Danny Glover, Denzel Washington, Whoopi Goldberg, Morgan Freeman, Samuel L Jackson, Wesley Snipes.

Produções

Cida Reis já produziu e fez a co-direção de dois longas metragens: “Salve Maria – Memória da Religiosidade Afro-Brasileira em Belo Horizonte: Reinados Negros e Irmandades do Rosário”, lançado em 2006 e “Um Olhar sobre os Quilombos no Brasil” – 2006. O filme sobre os Quilombos foi lançado como longa, mas depois disponibilizado na internet como cinco curtas. Há dois anos participa do Coletivo Coisa de Preto, onde discutem a importância na construção de um audiovisual que contemple as histórias, pontos de vista, estética e presença do povo afro-brasileiro no cinema. O Coletivo criou um canal no YouTube e lançou uma série intitulada “Vendedora de Sonhos”. Cida Reis informa, em primeira mão ao Notícia Preta, que está desenvolvendo projetos para produção e lançamento de três longas nos próximos dois anos.

Quanto ao poder de influência do cinema, de acordo com Reis, a sétima arte talvez seja a que possui o maior poder de influência tanto para o bem, como para o mal. “Por meio do cinema, o imaginário de um povo pode ser fortalecido como no caso dos brancos Americanos, ou subjugado, como no caso do povo negro no Brasil e nas Diásporas da América Latina, enfatiza.

Cida Reis – Foto: Arquivo Pessoal

Cinema e Sociedade

A sociedade, com o passar do tempo, vem evoluindo e criando novos conceitos, principalmente em relação às novas tecnologias e utilização de ferramentas para a divulgação dos trabalhos. De acordo com Cida, a web abriu uma janela única de suma importância, principalmente para os cineastas negros que não tinham condições e visibilidade para mostrar suas produções. “à disponibilidade de minhas produções na internet permite que todas as pessoas que participaram dos meus vídeos possam se ver, mostrar para seus amigos e familiares. Para o mercado, abriu novas possibilidades de ganho financeiro. Para os realizadores a internet também influencia porque facilita o acesso ao nosso trabalho, facilita na divulgação, aproxima nosso trabalho junto ao público alvo e com  futuros parceiros”, pontua.

Para finalizar, Cida Reis revela que produzir um documentário é uma experiência única de crescimento humano. “É preciso uma escuta atenta e ao mesmo tempo sincera. O interlocutor precisa se sentir à vontade para contar sua história a alguém que está interessada em ouvi-lo. As trocas que vivenciei nas produções realizadas me criaram novas perspectivas no campo do sagrado, nas relações e vivências comunitárias, na diversidade cultural”.

Igor Rocha

Igor Rocha é jornalista, nascido e criado no Cantinho do Céu, com ampla experiência em assessoria de comunicação, cinegrafista, editor de vídeos e escritor nas horas vagas. Além disso, é sambista e administrador da página Relicário Samba Sempre.

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