O autor Daniel Berlinsky afirmou que a presença de personagens negros em posições de prestígio na nova versão da novela Dona Beja, exibida pela Band, foi construída a partir de pesquisa histórica. Segundo o roteirista, o protagonismo negro retratado na trama não é ficção, mas parte da realidade social do Brasil no século XIX.
A novela estreou na quinta-feira (05) e ganhou uma releitura contemporânea de uma história originalmente exibida pela Rede Manchete em 1986. Em entrevista ao programa Noite Especial Dona Beja, Berlinsky destacou que o roteiro foi desenvolvido com base em dados históricos e pesquisas sobre a população negra no período.

“A questão dos personagens negros em lugares de poder na novela não é invenção. A gente foi atrás de pesquisas”, afirmou o autor.
Para sustentar a abordagem narrativa, o roteirista citou informações demográficas do Brasil imperial. De acordo com ele, o censo de 1872 indicava que três em cada quatro pessoas negras no país não estavam mais submetidas à escravidão.
A partir desses dados, a equipe de roteiristas decidiu ampliar o olhar sobre a experiência da população negra no período. “Essa foi a provocação que recebemos: mostrar a experiência do povo negro fora do cativeiro. Fomos pesquisar e descobrimos que existiam muitos, e é sobre eles que quisemos jogar o refletor”, disse Berlinsky.
A proposta da novela é apresentar personagens negros inseridos em diferentes espaços sociais, inclusive em posições de prestígio. Um dos núcleos centrais da trama retrata uma família negra estruturada e bem-sucedida, com integrantes que atuam como advogados e investem na educação dos filhos.
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“A gente vê uma família feliz que existia assim. Manda o filho para estudar na Europa para se formar advogado. É uma família de advogados que lutam pela liberdade”, comentou a apresentadora Chris Flores durante o programa.
Segundo o autor, a escolha também dialoga com lacunas históricas presentes no ensino tradicional brasileiro. Ele afirma que muitas narrativas sobre o século XIX costumam se concentrar exclusivamente na escravidão, sem destacar a presença de pessoas negras livres e atuantes em diferentes áreas da sociedade.
Além do recorte racial, a nova versão de Dona Beja também propõe uma releitura estética e narrativa da época retratada. A novela utiliza uma linguagem atual e figurinos inspirados no período histórico, mas adaptados para facilitar a identificação do público contemporâneo.
“Nosso português falado, por exemplo, na novela, é intencionalmente atual. Ele tem um cheiro de época, mas ele não é o português que falava na época”, explicou Berlinsky.
A construção da narrativa também contou com consultoria especializada. O roteirista mencionou a colaboração da historiadora Glaura Teixeira, pesquisadora da cidade de Araxá, além da participação de consultores de diversidade e historiadores na equipe de produção.
“Entre nós já havia uma efervescência de opiniões e sensações para trabalhar essa leitura da história que o público já conhece”, afirmou o autor.







