Mutirões de saúde realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) têm ampliado o acesso da população a exames e cirurgias em todo o país, mas episódios recentes na Bahia e na Paraíba levantaram questionamentos sobre a segurança desses atendimentos.
Nos dois estados, mutirões oftalmológicos resultaram em complicações graves. Em Irecê, na Bahia, mais de 20 pacientes relataram problemas de visão após procedimentos realizados entre fevereiro e março. Segundo a Secretaria de Saúde do Estado, ao menos 26 pessoas apresentaram reações adversas, como infecção e inflamação ocular. Um dos pacientes precisou retirar o globo ocular e outro morreu cerca de um mês após o procedimento.
A fabricante Roche Farma Brasil informou que o medicamento utilizado na Bahia, o Avastin, é indicado para tratamento de câncer e “não foi desenvolvido para uso oftalmológico injetável”, além de destacar que o uso fora de bula pode estar associado a eventos adversos.

Já em Campina Grande, na Paraíba, um mutirão realizado em maio de 2025 segue sob investigação. A Polícia Civil solicitou à Justiça mais 60 dias para concluir o inquérito. De acordo com a Secretaria de Saúde do estado, parte dos medicamentos utilizados estava vencida e aberta. Após o procedimento, pacientes relataram dores intensas, infecções e perda de visão.
Apesar dos casos, o governo federal tem ampliado a realização de mutirões como estratégia para reduzir filas no SUS. Em março de 2026, foi realizado o maior mutirão da história do sistema voltado exclusivamente às mulheres. Em dois dias, mais de 229 mil atendimentos foram realizados em todo o país, incluindo exames e cirurgias de média e alta complexidade.
A ação mobilizou hospitais públicos, filantrópicos e universitários e contou com medidas de apoio como transporte gratuito para pacientes em diversas cidades. Também foram realizados milhares de procedimentos ginecológicos, diagnósticos por imagem e cirurgias gerais.
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, destacou a importância da iniciativa para o acesso à saúde. “O Brasil inteiro e as mulheres agradecem muito pelo SUS, por essa força e união da rede de saúde. Quando perguntamos para as mulheres quais as prioridades para as políticas públicas, elas respondem: saúde, acolhimento e respeito. Agora o SUS está cada vez mais presente na vida das mulheres”, afirmou.
Em dezembro de 2025, outro mutirão nacional já havia realizado mais de 61 mil procedimentos, envolvendo hospitais em todos os estados e o Distrito Federal, segundo o Ministério da Saúde.
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Especialistas apontam que os mutirões são essenciais para reduzir a demanda reprimida no sistema público, especialmente para pacientes que aguardam meses ou anos por atendimento especializado.
Ao mesmo tempo, os casos registrados na Bahia e na Paraíba evidenciam a necessidade de fiscalização e controle na execução dessas ações. Investigações seguem em andamento nos dois estados para apurar responsabilidades e as circunstâncias dos atendimentos.
No Brasil, a maior parte dos usuários do SUS é composta por pessoas de baixa renda, que dependem exclusivamente do sistema para acesso à saúde. Por isso, episódios como esses têm impacto direto sobre a população mais vulnerável e reforçam o debate sobre a qualidade dos serviços oferecidos em larga escala.










