“Metas fiscais não funcionam”: economista debate os limites do tripé macroeconômico

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Em entrevista ao NP, o economista Gabriel Xavier, analisa o Tripé Macroeconômico: os acertos e limites do modelo que substituiu o Plano Real, discute a meta de inflação, o câmbio flutuante e aponta caminhos para uma política econômica soberana

Há mais de duas décadas, a economia brasileira opera sob a lógica do tripé macroeconômico, que é conjunto de políticas macroeconômicas implementadas ainda no governo Fernando Henrique Cardoso que estabeleceu o câmbio flutuante, o regime de metas de inflação e a busca por superávits primários como pilares da gestão econômica. O modelo substituiu a âncora cambial do Plano Real, que mantinha o câmbio fixo como instrumento de controle da inflação, e inaugurou uma nova fase na política econômica brasileira.

Mas afinal, o que é macroeconomia? Em entrevista exclusiva, o economista Gabriel Xavier, formado pela União Pioneira da Integração Social (UPIS), explica que a diferença para a microeconomia é essencialmente didática.

“Tudo é economia, mas a macroeconomia lida com questões mais gerais: crescimento do PIB, inflação, orçamento público da União, política monetária e fiscal. Já a microeconomia trata da regulação de indústrias, relações de trabalho e códigos ambientais, a reforma trabalhista de 2017, por exemplo, pode ser considerada uma reforma microeconômica”, contextualiza.

Passados 25 anos, como avaliar o tripé? O modelo resistiu a crises, mas enfrenta críticas crescentes de setores que apontam seu viés recessivo e a rigidez excessiva. Gabriel Xavier aceitou o desafio de analisar cada pilar do tripé e projetar alternativas para um projeto de desenvolvimento soberano.

“O tripé estabiliza, mas pune o crescimento”, avalia economista

Gabriel tem um uma visão mista. Por um lado, o tripé macroeconômico é uma medida estabilizadora, que evita surtos inflacionários ao adotar uma política fiscal conservadora e introduzir o regime de metas explícito (algo que não existia antes no Brasil).

“Por outro lado, infelizmente o tripé tem custos: ele pune o crescimento econômico e a geração de emprego, e é demasiado rígido. As metas fiscais tiveram de ser abandonadas durante recessões para dar fôlego à economia, como vimos na pandemia”, afirma.

Meta de inflação a 3%: conservadorismo ou prudência?

Atualmente, o Conselho Monetário Nacional (CMN) — formado pelo ministro da Fazenda, ministro do Planejamento e presidente do Banco Central — define a meta de inflação. No governo Lula, a composição do conselho dá maioria ao governo para alterar a meta, que vem sendo reduzida gradualmente desde 2017, saindo de 4,5% para os atuais 3,0%.

Ele explica que o Brasil estruturalmente, pela sua própria organização econômica, tem uma inflação acima de 3,0%. Isso exige que o Banco Central tenha sempre uma postura conservadora, restringindo a geração de emprego e o crescimento da renda. Uma meta de 4,0% parece mais adequada para conciliar estabilidade com crescimento.

Ele avalia que o funcionamento das metas anuais parece justo. “É importante lembrar que a política monetária tem efeito defasado — não tem impacto imediato, essa defasagem é por volta de 6 a 12 meses.”, disse.

Câmbio flutuante: entre a soberania e a desvalorização cambial

O câmbio flutuante substituiu o câmbio fixo do Plano Real, permitindo que o valor do real seja determinado pelo mercado. O modelo passou por testes severos: em dez anos, a moeda brasileira saiu de R$ 2,20 para R$ 5,20 por dólar.

“Tanto o câmbio fixo quanto o flutuante têm seus custos e benefícios. Muito da nossa soberania econômica (como as amplas reservas internacionais e a pouca dívida externa) facilita um câmbio flutuante, permitindo apreciação do real com impacto na renda e no consumo, como vimos de 2004 a 2012. Acredito ser uma opção melhor que um simples câmbio fixo.”, analisa.

Gabriel entende que o cenário externo mudou: os fluxos de investimento internacionais estão menos intensos para mercados emergentes como o Brasil. O crédito internacional diminuiu, a China reduziu sua demanda por commodities e os investidores passaram a preferir ativos mais seguros nos Estados Unidos. Por outro lado, fatores internos também contribuíram.

A economia foi muito fraca de 2017 a 2022 — não há razões para fluxos mais intensos de investimento externo num país com enorme desemprego e baixo crescimento, e que isso seria a alquimia para que o cambio saísse de 2,20 para mais de R$5,00 em poucos anos.

Tripé macroeconômico é o conjunto de políticas implementadas por FHC: câmbio flutuante, metas de inflação e a busca por superávits primários – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Supostamente, uma taxa de câmbio desvalorizada ajuda as exportações brasileiras a serem mais competitivas contra produtos estrangeiros.

“Na teoria, isso beneficia setores como o agronegócio e a indústria de transformação. Mas há custos sociais: um câmbio alto tem impacto direto no consumo interno e na renda do trabalho. Imagine que você quer comprar um celular, um remédio importado ou até mesmo peças para seu carro — tudo fica mais caro. Produtos nacionais que usam insumos importados também sobem de preço. No fim do dia, o poder de compra do trabalhador encolhe”, explica.

Metas fiscais e o Novo Arcabouço: rigidez ou flexibilidade?

O Novo Arcabouço Fiscal, em vigor, determina que as despesas só podem crescer até 70% do aumento real da receita, com limite de 2,5% acima da inflação — o que impede o governo de gastar na mesma proporção do que arrecada. Ao mesmo tempo, a Constituição obriga a ampliação dos pisos de Saúde e Educação quando a receita cresce, o que pode fazer esses gastos ocuparem uma fatia maior do teto e reduzir o espaço para outras políticas sociais, como Bolsa Família, BPC e investimentos públicos.

O economista acredita que o Novo Arcabouço Fiscal, popularmente conhecido como Novo Teto de Gastos, que rege a política fiscal do país tenha uma função negativa na economia.

“Metas fiscais em geral não funcionam. O governo deve conduzir a política fiscal para garantir renda e emprego. É um fato óbvio que em uma recessão econômica essas metas serão abandonadas, como foi durante a pandemia. A política fiscal precisa ser instrumento de desenvolvimento, não uma camisa de força”, diz.

O objetivo da política fiscal é garantir renda, emprego e desenvolvimento. “Isso não significa nunca cortar gastos”, afirma. “Muitas partes do orçamento público serão revistas em um Brasil socialista: gastamos muito com altos salários para o Judiciário e os militares, enquanto professores do ensino básico muitas vezes sequer recebem o piso do magistério. É preciso reorientar o gasto público para priorizar quem realmente precisa”, dispara.

Para Gabriel, o arranjo perfeito de políticas macroeconômicas passa por alternativas que reforcem a soberania do Brasil. Isolar o Brasil de choques de petróleo com aumento da produção e refino internos — algo que só a Petrobras tem capacidade de fazer. Também seria necessária uma reestruturação econômica de diversos setores. “O maior exemplo é a saúde, que deve ser 100% pública. O país importa uma enorme quantidade de material hospitalar; uma indústria nacional nesse setor poderia gerar bons empregos e garantir a oferta para todos os hospitais públicos do Brasil”, explica.

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Thayan Mina

Thayan Mina

Jornalista pela Faculdade de Comunicação (FCS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Atualmente mestrando pelo PPGCOM da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É músico e sambista.

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