“Para que a escola seja antirracista é fundamental que os professores também sejam”. A afirmação é da especialista em gestão educacional Maria Correa e sintetiza um debate que ganha destaque no Dia Mundial da Infância e no Dia Internacional de Combate à Discriminação Racial, celebrado no próximo sábado, 21 de março.
As datas reforçam a importância da educação antirracista desde os primeiros anos de vida. Para especialistas e educadores, a escola tem papel decisivo na construção da identidade, da autoestima e do sentimento de pertencimento de crianças negras.
Segundo Maria Correa, especialista em articulação e gestão educacional do Projeto SETA, iniciativa que busca fortalecer práticas antirracistas nas redes públicas de ensino, a educação integral precisa incorporar de forma estruturada o enfrentamento ao racismo.

Ela afirma que o processo educativo na primeira infância é um momento determinante para a formação de valores e percepções sobre o mundo.
“Para que a escola seja antirracista é fundamental que os professores também sejam, e suas práticas reflitam esse princípio. Na primeira infância estamos construindo caminhos, conceitos e aprendizagens que serão levados por toda a vida. Nessa fase é preciso respeito às diferenças, senso de comunidade e compreensão de que povos negros, indígenas e quilombolas também constroem a sociedade brasileira com seus saberes e sua participação”, explica.
Para a especialista, a representatividade e o reconhecimento da diversidade cultural ajudam a combater estereótipos e contribuem para que crianças negras desenvolvam uma relação mais positiva com sua própria identidade.
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Creche da Penha aposta na valorização do território
No Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, a Creche Municipal Betinho desenvolve projetos pedagógicos voltados para a valorização da cultura periférica e da história do território onde os alunos vivem.
A diretora da unidade, Estela Martins, explica que o Projeto Pedagógico Anual da creche para 2026 propõe reflexões sobre saberes e experiências produzidos nas favelas.
Segundo a educadora, a proposta surgiu também como resposta ao impacto de episódios de violência que atingiram o território nos últimos anos.
“Essa escolha nasce também do que vivemos no ano passado, quando uma operação resultou em diversas mortes na região. Isso impactou diretamente as nossas famílias e crianças. Muitas vezes elas acabam tendo acesso apenas a essas narrativas sobre o lugar onde vivem. Nosso objetivo é mostrar a potência desse território e que dentro das favelas existem muitas histórias para além da violência”, afirma.
Como parte do projeto pedagógico, a escola planeja promover um ciclo de formação para educadores, convidando especialistas e lideranças para discutir temas relacionados à relação entre educação, território e racismo.
Entre os temas previstos estão racismo ambiental, saúde da população negra periférica, corpo e território, além de reflexões históricas e sociais sobre a formação das favelas.
Educação antirracista começa na primeira infância
Para Estela Martins, a creche é um dos primeiros espaços coletivos de convivência das crianças e, por isso, tem papel importante na formação de valores relacionados ao respeito e à diversidade.
Segundo ela, práticas pedagógicas que valorizam diferentes culturas e histórias ajudam a construir relações sociais mais igualitárias desde cedo.
“É nesse ambiente que as crianças começam a perceber as diferenças, aprender a compartilhar e reconhecer que existem muitas formas de viver e pertencer ao mundo. Quando a creche assume práticas que valorizam diferentes identidades, ela contribui para formar crianças mais sensíveis às diferenças e comprometidas com relações mais justas”, afirma.
A diretora destaca ainda que a educação antirracista não deve aparecer apenas em projetos pontuais ou em datas comemorativas.
De acordo com a educadora, o tema precisa atravessar todo o processo pedagógico e fazer parte da formação permanente de professores e gestores escolares.
“Começar esse trabalho na primeira infância significa ajudar a construir uma sociedade mais justa desde o início da vida. Isso exige intencionalidade pedagógica, estudo e compromisso cotidiano”, conclui.








