Levantamento revela que 70% dos docentes relataram episódios de sexualização de meninas e 42% afirmaram já ter presenciado toques não consentidos
A escola deveria ser espaço de proteção, aprendizado e construção de futuro. Mas, para milhares de meninas brasileiras e em grande parte meninas negras, o ambiente escolar também tem sido cenário de violência, silenciamento e discriminação. É o que revela a pesquisa “Livres para sonhar? Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas”, realizada pela organização Serenas em parceria com a Plano CDE e publicada no Observatório de Educação do Instituto Unibanco, iniciativa do Instituto Unibanco.
O levantamento ouviu 1.383 professores do Ensino Fundamental II e Médio de todas as regiões do país, além de realizar entrevistas e grupos focais com 98 pessoas entre estudantes, educadores e gestores escolares. Os dados escancaram que a violência baseada em gênero é frequente, naturalizada e, muitas vezes, atravessada pelo racismo.

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Racismo e desigualdade no centro do problema
Um dos dados mais alarmantes aponta que 52% dos docentes já presenciaram tratamento desigual contra meninas negras em atividades pedagógicas. A intersecção entre racismo e machismo torna essas estudantes ainda mais vulneráveis dentro do espaço escolar.
Além disso:
- 68% dos professores testemunharam comentários constrangedores sobre a aparência de alunas;
- 70% relataram episódios de sexualização de meninas;
- 42% afirmaram já ter presenciado toques não consentidos de estudantes homens em meninas.
A pesquisa evidencia que a violência não é apenas física, ela se manifesta em humilhações, estereótipos, exclusões e controle sobre o corpo e o comportamento das alunas. Meninas consideradas “desinibidas” ou que fogem de padrões impostos também aparecem como alvos recorrentes.
Violência cotidiana e naturalizada
O ambiente escolar reproduz desigualdades estruturais da sociedade. Segundo o estudo:
- 31% dos educadores afirmam que desrespeito e agressões acontecem quase diariamente nas escolas;
- 16% dizem que esses episódios ocorrem semanalmente;
- 76% relataram casos de bullying;
- 47% apontaram ataques e exposições online contra alunas;
- 43% disseram ter presenciado divulgação de conteúdo íntimo de meninas em grupos digitais.
Mesmo assim, parte dessas situações ainda não é reconhecida por todos como violência de gênero. Embora 77% dos docentes concordem que compartilhar imagens íntimas é violência, e 76% reconheçam comentários sexuais sobre o corpo como agressão, outras práticas discriminatórias continuam sendo minimizadas.
Professores também reproduzem machismo
A pesquisa também revela que o problema não está restrito aos estudantes. 51% dos professores já presenciaram comentários machistas feitos por colegas educadores, sendo que 17% afirmam que isso ocorre com frequência mensal ou maior.
Esse dado reforça que a escola não está isolada da cultura estrutural de desigualdade que atravessa o país.
Impacto direto na aprendizagem
A violência de gênero não afeta apenas a autoestima, ela compromete o desempenho e o futuro das estudantes. A pesquisa revelou que 86% dos professores reconhecem que a violência de gênero impacta negativamente a aprendizagem das meninas e que 71% afirmam já ter observado esses impactos concretamente.
Medo, constrangimento e sensação de não pertencimento reduzem a participação em sala de aula, aumentam o isolamento e podem influenciar trajetórias educacionais.
Para meninas negras, o peso é ainda maior: além da violência de gênero, enfrentam o racismo estrutural que limita oportunidades e reforça estigmas.
Falta de preparo e políticas insuficientes
Apesar de 99% dos profissionais afirmarem que a escola deve atuar na prevenção da violência de gênero, a formação ainda é limitada:
- Apenas 33% participam de palestras ou seminários sobre o tema;
- 22% fazem cursos opcionais;
- Apenas 10% têm acesso a cursos obrigatórios sobre violência de gênero;
- 29% dos docentes se sentem pouco ou nada preparados para tratar do assunto com estudantes.
Temas como prevenção à violência de gênero (35%) e equidade de gênero (21%) aparecem com menos frequência nas escolas do que discussões sobre bullying (82%)









