Lava-pés de R$ 1 chama atenção em Festa de Iemanjá em meio a renda baixa na Bahia

vlava-pes-festa-yemanja-bahia-noticia-preta-teste.jpeg

Enquanto a Festa de Iemanjá reúne mais de um milhão de pessoas no Rio Vermelho e movimenta parte do verão que injeta cerca de R$ 1,5 bilhão na economia de Salvador, um serviço improvisado de lava-pés por R$ 1 revela outra face da celebração. Trabalhadores informais montam estruturas simples na orla para retirar a areia dos pés de devotos e turistas que saem do mar após as oferendas. “Qualquer moedinha paga”, anuncia um dos vendedores.

A cena acontece no mesmo estado onde o rendimento médio mensal do trabalhador é de R$ 2.165, o terceiro menor do país, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O valor é 32,8% inferior à média nacional, que ficou em R$ 3.225. Entre pessoas pretas, o rendimento médio cai para R$ 1.775. Entre homens e mulheres, a diferença também aparece, com R$ 2.254 para eles e R$ 2.032 para elas.

Foto: Jorge Gauthier / @correio24horas

Depois de entrar no mar para entregar oferendas à Rainha do Mar, muitos participantes recorrem ao serviço antes de seguir para outros compromissos ou retornar para hotéis e casas. O pagamento pode ser feito em moedas ou por Pix, facilitando o acesso ao serviço que custa menos que uma passagem de ônibus.

A programação da festa começou ainda de madrugada, com a saída do presente principal às 4h30 em direção à Praia de Santana, na Colônia de Pesca Z-01. O balaio permanece no local até as 16h, quando começa o cortejo marítimo para a entrega das oferendas a cerca de três milhas da costa. Pescadores organizam os rituais e orientam o público durante todo o dia.

LEIA TAMBÉM: Terreiro de candomblé é vandalizado com pichações religiosas em Salvador

Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Salvador pela Fundação Gregório de Mattos, a celebração completa 104 anos em 2026 e é considerada o quarto maior evento da cidade, atrás apenas do Carnaval, do Réveillon e da Lavagem do Bonfim. Segundo a prefeitura, até 40% do público é formado por turistas de outros estados e países.

A festa também impacta outros setores da economia local. De acordo com a cooperativa Cooperflora, as vendas de flores aumentam até 80% no período. Restaurantes, ambulantes, hotéis e serviços ligados ao turismo registram alta na movimentação.

Ao mesmo tempo, o crescimento da informalidade no estado ajuda a explicar a presença de trabalhadores oferecendo serviços simples durante a festa. Entre 2023 e 2024, mais 34 mil pessoas passaram a atuar de forma informal na Bahia.

Entre o cortejo das oferendas, a fé e a presença de turistas, o lava-pés de R$ 1 se transforma em um retrato da economia popular que acompanha um dos maiores eventos culturais da cidade, revelando como a celebração também expõe a realidade de renda de parte significativa dos baianos.

Deixe uma resposta

scroll to top