Doutora em Letras lança livro “Intelectuais Negras: prosa negro-brasileira contemporânea”

No dia 30 de novembro, a doutora em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Mirian Santos, lançará, no Rio de Janeiro, seu livro “Intelectuais Negras: prosa negro-brasileira contemporânea”. Publicado pela  Editora Malê, o estudo pretende discutir a função das mulheres negras nas transformações que a sociedade ainda precisa fazer, bem como as principais demandas delas s na conjuntura social vigente.

O lançamento será às 19h na Casa das Pretas, que fica na Rua dos Inválidos 122 (sobrado) – Lapa, Rio de Janeiro. Na entrevista concedida ao Notícia Preta, a autora dá mais detalhes do livro, suas perspectivas e referências e também sobre a importância da escrita negra. Confira:

Notícia Preta: Quais são as transformações sociais mais urgentes e como seu livro aborda essas questões?

Miriam Santos: Proponho o reconhecimento de escritoras negras enquanto intelectuais. Nele abordo principalmente o papel de Miriam Alves, Conceição Evaristo e Cristiane Sobral no processo de luta por transformações sociais, principalmente no que tange a questões étnico-raciais, de gênero e de classe. Para mim, enquanto mulher negra, essas questões urgentes perpassam a necessidade de reparação das inúmeras violências, que atravessam a população negra de diversas formas, advindas de uma história de escravidão e de marginalização. Essas lutas decorrem de uma necessidade de desconstrução de estereótipos negativos, que nos envolvem, e até mesmo de uma necessidade de buscar o reconhecimento de nossa capacidade intelectual, a qual é diariamente questionada. Em “Intelectuais Negras”, essas questões são temas de primeira ordem, a partir do recorte feminista-negro. Assim, denúncias de sexismo e racismo aparecem como traços candentes. E, ao se politizar o afeto, o cotidiano, o corpo negro, há um apelo por transformações sociais que se mostra urgente.

Notícia Preta: Nas redes sociais, hoje, é possível encontrar diversos conteúdos que estimulam mulheres negras a escrever, algo que não era muito comum há alguns anos. O que você acha que provocou esse fenômeno?

Miriam Santos: Os conteúdos que estimulam mulheres negras a escrever disponíveis na internet, acredito eu, foram possíveis a partir do encontro de dois grandes fenômenos dos últimos anos: as cotas raciais e a “popularização” do acesso ao mundo digital. Hoje inúmeras mulheres negras compartilham suas experiências nas redes sociais, tecem redes de afeto, recomendam leituras, indicam caminhos. Além disso, negras acadêmicas, muitas delas as primeiras de suas famílias a frequentar uma universidade, têm um papel importantíssimo neste fenômeno, ao serem exemplos para outras.

NP: Na divulgação do seu livro há referências de outras escritoras negras para a fundamentação do seu argumento teórico. Além da academia como essas autoras inspiram a Mirian mulher, trabalhadora e cidadã?MS: Os textos de Conceição Evaristo, Miriam Alves, Cristiane Sobral e outras, com certeza me tornaram uma professora, cidadã e pessoa melhor e mais consciente das minhas responsabilidades enquanto mulher, negra, pobre e letrada. Desde o primeiro momento em que eu tive acesso à escrita feminina negra, eu me senti devidamente representada, em minha subjetividade e em termos literários e teóricos. “Sempre” digo para as pessoas que eu “sempre” fui negra e desde “sempre” senti o peso do racismo. Então, o que mudou? Do encontro com a escrita de mulheres negras, surgiu uma Mirian mais sensível e fortalecida. Nesse sentido, hoje consigo colocar em palavras muitas angústias e aflições que há muito eu sentia. Assim como essas mulheres e outras me inspiram constante e diariamente, eu quero que a literatura negra escrita por mulheres seja presença viva no cotidiano de outras mulheres negras.

NP: Pode deixar alguma dica de referências para quem está começando a se aproximar da pauta feminista negra?

MS: Sobre a pauta feminista negra, principalmente considerando a realidade brasileira, Djamila Ribeiro e Sueli Carneiro são referências chaves: acesso fácil, linguagem acessível e conteúdo de qualidade.

Fernanda Quevedo

é Mato-grossense e tem 32 anos. É redatora publicitária, escritora e social media. É formada em Serviço Social e pós-graduanda em Marketing. Já foi ativista pela democratização da comunicação e da Cultura, sendo uma das fundadoras da Midia Ninja e trabalhando em diversas organizações do terceiro setor em Cuiabá, São Paulo, Porto Alegre e Brasília. Hoje mora no Rio de Janeiro e realiza projetos e consultorias de letramento e escrita criativa digital.

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