O número de mulheres afastadas do trabalho por violência física, sexual ou psicológica cresceu 313% em quatro anos no Brasil. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que 91 mulheres receberam auxílio do INSS em 2025 após episódios de agressão, contra 22 em 2021.
A maioria dos afastamentos está ligada à violência física, que representa 85% dos casos registrados. Também aparecem relatos de abuso sexual, maus-tratos e negligência. Os dados são baseados em laudos médicos que utilizam a Classificação Internacional de Doenças, mas, em grande parte dos registros, não há identificação do agressor.
O avanço da violência também aparece no setor privado. Um levantamento da empresa VR Benefícios, com base em dados de cerca de 4 milhões de trabalhadores, identificou 58 afastamentos por agressão contra mulheres em 2025, mais que o dobro dos 23 casos registrados em 2023.

Além do impacto na saúde, a violência de gênero afeta diretamente a vida profissional das vítimas. Faltas recorrentes, queda de produtividade, mudanças de endereço e até abandono do emprego fazem parte da realidade de muitas mulheres.
Os dados evidenciam um problema que atinge de forma desigual a população. Segundo a pesquisa “Quem são as mulheres que o Brasil não protege?”, 68% das mulheres assassinadas no país por serem mulheres entre 2015 e 2024 eram negras. O levantamento também mostra que, enquanto os casos envolvendo mulheres brancas apresentaram leve queda, a violência aumentou entre pretas e pardas.
A dependência financeira aparece como um dos principais fatores que dificultam a saída de relações abusivas. Estudos do DataSenado e da Universidade de Brasília indicam que a falta de renda própria mantém mulheres em situação de risco, especialmente nas classes C, D e E.
Diante desse cenário, algumas empresas começaram a estruturar redes de apoio para funcionárias vítimas de violência. Um dos exemplos é o Magazine Luiza, que criou um canal interno de acolhimento e já atendeu cerca de 1.400 mulheres desde 2017, oferecendo suporte jurídico, psicológico e encaminhamento para serviços públicos.
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Outras companhias também passaram a adotar medidas semelhantes. A Natura implementou um canal de atendimento via WhatsApp que auxiliou quase 300 mulheres apenas em 2025. Já o Banco do Brasil criou mecanismos de proteção que incluem transferência de local de trabalho e suporte financeiro. A Petrobras, por sua vez, passou a investir em programas de conscientização e formação sobre masculinidade.
Mesmo com esses avanços, especialistas apontam que a maioria das empresas ainda não está preparada para lidar com o problema, especialmente as de pequeno porte, que enfrentam limitações estruturais e financeiras.
O debate também chegou ao campo jurídico. O Supremo Tribunal Federal decidiu que mulheres afastadas do trabalho por violência doméstica têm direito à manutenção do emprego e da renda por até seis meses, quando há medida protetiva. Nesse período, o empregador paga os primeiros 15 dias de afastamento e o INSS assume o restante.
Para especialistas, a violência contra a mulher deixou de ser uma questão restrita ao ambiente doméstico e passou a impactar diretamente o mercado de trabalho e a economia. O desafio agora é transformar ações pontuais em políticas permanentes de proteção, garantindo que mulheres tenham condições reais de romper o ciclo da violência sem perder sua autonomia financeira.









