“Tem diagnóstico de dor mas não é para paralisar, é para emancipar”, diz Lázaro Ramos sobre livro ‘Na Nossa Pele’

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Nesta segunda-feira (17) o livro ‘Na Nossa Pele’, do ator, escritor e diretor e Lázaro Ramos chegou às livrarias de todo país. Em entrevista ao Notícia Preta, Lázaro contou com mais detalhes o processo de escrita da obra que é uma continuação do best-seller “Na Minha Pele”, lançado em 2017, e dos diversos assuntos que aborda no livro, que vai desde questões raciais, até lembranças de sua mãe, Célia Maria do Sacramento.

Esse é um livro que tem diagnóstico de dor mas não é para paralisar, é para emancipar, é para se libertar. É para conseguir se enxergar para além da dor, e isso às vezes nos é negado. Eu quero que as pessoas se enxerguem ali dentro e se sintam acolhidas“, explica Lázaro, sobre a obra lançadaa pelo selo Objetiva, do grupo Companhia das Letras.

O livro ‘Na Nossa Pele’ é a continuação do do best-seller “Na Minha Pele”/ Foto: Rafael Reis e Antonio Netto

Lázaro conta que o nascimento dessa nova obra não foi pensado, e que a produção foi fluindo durante um longo período que começou em 2018, e que finalizou em meados do ano passado, durante sua viagem a Cabo Verde. “Eu fui inundado com ancestralidade, arte preta, poesi, e fui conduzindo o livro pra esse lugar. Essa ida para Cabo Verde foi muito fundamental“, explica o escritor, que brinca que pensou em ter até uma casa por lá.

Assim, o novo livro, segundo Lázaro, não foi escrito de forma linear. “Eu tinha rascunho de um monte de coisas novas que eu estava pensando, depois comecei um livro sobre a África, e ai naturalmente algumas memórias da minha mãe apareceram, e percebi que tinha uma certa similaridade com o primeiro livro. E eu fui entendendo, aos poucos, que eu estava tendo uma convocação da ancestralidade, de que eu tinha que olhar para a minha mãe com um pouco mais de justiça, para além das memórias dolorosas que eu tinha, da vida que ela teve“, explica.

‘Na Nossa Pele’ já começa, na introdução, contando dessas “pazes” do ator com Célia Maria do Sacramento, que faleceu quando Lázaro tinha apenas 18 anos. Segundo ele, o livro foi uma forma de se reaproximar de sua mãe e sob o olhar coletivo, é a continuação da conversa que começou no livro anterior.

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Para dar a sensação de que a gente está cosntruindo a nossa história, com a chance de reavaliar, ver até onde a gente caminhou, repensar nossas estratégias, e buscar novas parcerias. Isso me contempla muito“, diz Lázaro. Sobre o processo de escrita, com uma abordagem ainda mais vulnerável, o escritor desabafa sobre a experiência da escrita.

Foi difícil colocar no papel, com alguns momentos de desistência, vergonha de ser visto dessa maneira, mas como fez parte de um processo terapêutico hoje eu sei que é um ponto pacífico e que esse livro tinha que se prestar a isso mesmo. Mas nu fundo não sei como vou reagir quando as pessoas lerem o livro, pois é bem íntimo e pessoal“, conta.

A vulnerabilidade, segundo ele, está bem presente nesse livro, assim como a questão da saúde mental, apesar de não ter sido mencionada na obra anterior. “A gente tem debatido tanto sobre. Como vou continuar sem falar disso? Não tem como“.

A contracapa do livro lançanado pela Editora Objetiva, possui textos escritos por nomes como o cantor Emicida, a atriz Elisa Lucinda e a jornalista Flávia Oliveira.

Debate sobre questões raciais

Nesse livro, assim como no anterior, Lázaro retoma discussões sovre racismo e demais questões raciais, que segundo ele, não poderiam ficar de fora.

Esse assunto me sequestrou desde a minha infância. Eu nçao tive escolha. Não é prazeroso, rouba nosso tempo, mas desde a minha infância eu tive que pensar sobre isso. A parte melhor disso é que eu consigo variar na linguagem. Ele ta no ‘Mister Brau’, em ‘Lado a Lado’, em ‘Ó Paí, Ó’, em ‘Madame Satã’, ‘Topo da Montanha’, em ‘Na minha pele’, mas é um assunto que eu constantmente estou discutindo. O que eu tento fazer nesse livro é atualizar um pouco o assunto“, diz.

Capa do novo livro de Lázaro Ramos /Foto: Divulgação

Lázaro afirma que esse livro não traz definições concretas com o fim da luta antirracista, e que ele é um continuidade. O escritor também afirma que não sabe se o livro vai “envelhecer bem” mas espera que ele ajude as pessoas hoje.

Um dos temas que ele celebra, é a existência da imprensa negra. “Ter mais vozes, mais pessoas circulando as informações“, explica. Mas também celebra as conquistas de protagonistas negras no audiovisual, as pessoas negras nas universidades. Por outro lado, lamenta as regressões por exemplo nas agendas de diversidade em empresas. “Nesse livro a gente pensa, o que vamos fazer agora?“, reflete, o escritor.

Bárbara Souza

Bárbara Souza

Formada em Jornalismo em 2021, atualmente trabalha como Editora no jornal Notícia Preta, onde começou como colaboradora voluntária em 2022. Carioca da gema, criada no interior do Rio, acredita em uma comunicação acessível e antirracista.

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