Taxa de juros sobe novamente e pode impactar empresas menores: crédito é um dos maiores custos

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O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) aumentou a taxa selic de 14,25% para 14,75% ao ano na última quarta-feira (07). Este é o maior patamar desde 2006, e isto pode encarecer o crédito aos trabalhadores e a micro e pequenas empresas, porque os bancos se baseiam nesta taxa para para definir seus juros para empréstimo e cartões. Cerca de 59% dos pequenos negócios tem mais de um terço dos seus custos comprometidos com dívidas segundo o Sebrae.

Esta é a terceira vez que a taxa de juros aumenta sob o comando de Gabriel Galípolo na presidência do Banco Centra (BC), que foi indicado pelo presidente Lula. O Copom é o órgão do Banco Central, formado pelo seu Presidente e mais 8 diretores, que definem, a cada 45 dias, a taxa básica de juros da economia – a Selic.

Raio X do empreendedorismo x trabalho

Os dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) são reveladores sobre a economia brasileira e a situação do médio e principalmente do pequeno empresário. No primeiro semestre de 2022, os pequenos negócios representavam cerca de 99% de todas as empresas brasileiras e foram responsáveis por 7 a cada 10 empregos, ou seja 70%.

Ainda em 2022, o Sebrae mostrou que 59% dos pequenos negócios tinham mais de 1/3 dos seus custos mensais comprometido com dívidas, entre os microempreendedores individuais (MEI) é ainda pior, aumenta para 67%.

Esta é a terceira vez que a taxa de juros aumenta sob o comando de Gabriel Galípolo na presidência do Banco Central – Foto: Tânia Rego/Agência Brasil.

Dificuldade no acesso ao crédito

A 10ª edição da pesquisa “Financiamento dos Pequenos Negócios no Brasil”, também do Sebrae mostrou que o principal recurso para pagar os custos dos médios e pequenos empresários é o cartão de crédito pessoal, que tem juros altos.

  • 39% Cartão de crédito (empresarial ou pessoal)
  • 20% Faz pagamento de fornecedores a prazo
  • 7% Cheque especial
  • 7% Dinheiro de amigos e parentes
  • 7% Empréstimos em bancos privados
  • 4% Empréstimos em bancos oficiais

A dificuldade para conseguir acesso a crédito se dá por garantias e burocracias que muitas vezes a pequena e média empresa não consegue dar. A maioria das instituições financeiras exigem imóveis ou recebíveis e isso faz com que essa parcela recorra ao crédito pessoal. Apesar de alocarem o maior número de empregados, empresas pequenas e médias não tem acesso fácil ao crédito barato.

Juros entre os maiores custos das empresas pequenas e médias

Um dos argumentos utilizados para não abolir a escala 6×1, era que a mão de obra já é um custo alto para os empregadores e diminuindo a jornada teriam que contratar mais mão de obra. Mas como mostrado nesta matéria, as empresas pequenas e média são responsáveis por 70% dos empregos. Em 2021 a taxa de juros alcançou a máxima de 9.25%, e os juros foram a maior reclamação dos empresários, não a mão de obra.

O levantamento foi realizado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) junto com Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e o Sebrae mostrou que as maiores reclamações entre os entrevistados foi:

  • Juros altos (44%)
  • Burocracia para abrir/manter/fechar empresas, contratação e dispensa de funcionários (34%)
  • Alta carga tributária sobre fabricação e venda de produtos/serviços (32%)
  • Alto custo para empregar/tributação elevada da folha de pagamento (32%)

Quem ganha com juros alto?

Cerca de 94% dos detentores de títulos são as empresas e apenas 6% são os CPF, trabalhadores comuns. Segundo o site Tesouro Nacional Transparente, que é responsável por divulgar os dados da Dívida Pública, 99% da dívida brasileira é formada por títulos públicos.

De forma simplificada um título público é uma promessa de pagamento na qual o governo se compromete a pagar o valor recebido em uma data futura acrescida de juros, que normalmente giram em torno do juros da taxa Selic. Atualmente fixada em 14,75%.

Pessoa física comum, pode investir a partir de cerca de R$ 30 (o mínimo varia conforme o título). A maioria dos pequenos investidores investe entre R$ 100 e R$ 1.000 por aplicação. Segundo dados do Tesouro Nacional, o valor médio por investidor pessoa física gira em torno de R$ 9.000 a R$ 10.000 em 2024.

Quem investe em títulos públicos da dívida recebe o valor investido, mais a valorização dos juros. Por exemplo: se um investidor aplica R$ 10.000,00 com uma taxa de juros de 14,75% ao ano, ao final de um ano ele terá um rendimento bruto de R$ 1.475,00. Isso significa que o governo pagará R$ 11.475,00 de volta ao investidor — os R$ 10.000,00 aplicados mais R$ 1.475,00 em juros.

Mas o bancos e instituições financeiras é que são os maiores investidores como informado acima, tendo assim um lucro muito maior com essa taxa alta do que trabalhadores comuns.

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As grandes empresas e o agronegócio

Enquanto por um lado as empresas pequenas e médias se queixam dos juros e altos impostos, o agronegócio e e setores que empregam menos recebem desonerações, ou seja, deixam de pagar impostos.

Principais mecanismos de isenção do agronegócio:

  • Isenta o pagamento de ICMS sobre produtos primários e semielaborados exportados: grãos, carnes, café, madeira, soja.
  • Isenção de IPI sobre produtos agropecuários. Exemplo: tratores, colheitadeiras e defensivos agrícolas.
  • Reduções ou isenções de PIS/Cofins

Em 2022, o setor de soja, por exemplo, teve uma renúncia fiscal estimada em R$ 57 bilhões anuais, considerando tributos como ICMS, PIS, Cofins e IPI, que deixam de ser arrecadados devido a isenções específicas para essa commodity.

O estudo foi elaborado em parceria pela ACT Promoção da Saúde, Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), o Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) e o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN).

Mas não só o agronegócio o setor financeiro também tem isenção nos impostos:

Em 2024, o setor bancário brasileiro deixou de pagar aproximadamente R$ 200 milhões em impostos devido a isenções fiscais. Esse valor foi destacado em uma matéria publicada pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, que analisou dados da Receita Federal e da Federação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro de Minas Gerais (Fetrafi-MG).

Thayan Mina

Thayan Mina

Jornalista pela Faculdade de Comunicação (FCS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Atualmente mestrando pelo PPGCOM da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É músico e sambista.

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