Rodrigo França, um presente de Papai Noel para o teatro e a cultura negra

Rodrigo França é ator, produtor, autor, diretor e ativista. Entre os muitos papéis interpretados pelo dramaturgo faltava um, o de Papai Noel. Quando recebeu o convite da ONG Favela Mundo para se vestir de bom velhinho e entregar livros para mais de 700 crianças e adolescentes, Rodrigo não hesitou e quebrou mais este paradigma: vestiu a roupa vermelha, as botas e o gorro e levou alegria à Cidade de Deus, comunidade na Zona Oeste do Rio.

“No início, tive receio de ser preterido, pois sei o quanto esse personagem é lúdico e afetado a partir de uma construção social que é puramente de uma estética branca e europeia e o quanto é difícil encontrar um papai Noel Negro. A criança negra ela não se enxerga na maioria dos programas, dos brinquedos. Só pra ter uma noção, apenas 3% dos brinquedos brasileiros, entre bonecos e bonecas, tem uma característica negra”, explica Rodrigo.

Sempre quebrando paradigmas, a militância de Rodrigo França e seu protagonismo na luta contra o racismo estão presentes na maioria de seus trabalhos. Este não é o primeiro personagem originalmente branco que Rodrigo França contextualiza na narrativa negra. O dramaturgo escreveu e dirigiu a peça ‘O pequeno Príncipe Negro’, que em 2018 foi assistida por mais de 20 mil pessoas, em quatro estados diferentes: “Meu trabalho basicamente é associado a minha militância, de poder fomentar uma relação muito positiva de si, em relação às crianças, de autoamor, autocuidado, autoproteção, de amar suas próprias características na medida que os personagens que são negros, no universo infantil, se amam, valorizam sua  ancestralidade, seus traços negroides e sua história”.

Rodrigo França é formado em Ciências Sociais, Filosofia e Normal Superior. Nas artes atua há mais de 25 anos, já participou de mais de 50 espetáculos, é uma referência no meio artístico negro. Na peça ‘Contos Negreiros do Brasil’, um espetáculo-documentário dirigido por Fernando Philbert que desmistifica o mito da democracia racial brasileira, além de atuar, Rodrigo foi responsável pela pesquisa, texto descritivo e iconografia da peça. Também foi escrito pelo artista o texto que viralizou nas redes sociais com dicas para os negros se protegerem nas abordagens, que foi transformado em vídeo pelo jornalista Edu Carvalho e o youtuber Spartakus e se espalhou pelo Brasil. Recentemente Rodrigo atuou na peça ‘O Encontro – Malcolm X e Martin Luther King’, onde interpretou um maiores líderes negros da história, o pastor protestante e ativista Martin Luther King.

 “Uma criança negra quando diz que um Papai Noel Negro é bonito, ela está se chamando de bonita também”

 

Para o dramaturgo, a representatividade no imaginário infantil é muito importante para que os paradigmas da sociedade sejam quebrados: “A importância de ter um Papai Noel negro é encontrar referências positivas de pessoas negras e verificar que elas também podem estar no meio lúdico, à medida que existe uma quebra de estética a partir de um personagem histórico que traz bondade, beleza, significativos e significantes positivos. As reações foram incríveis quando me vesti de Papai Noel. Colocaram o bracinho ao lado do meu para verificar que era a mesma tonalidade, tocaram no meu dread pra ver que é a mesma textura do cabelo delas. Uma frase que muito me tocou foi que eu era mais bonito do que o outro Papai Noel. Eu costumo dizer que uma criança negra quando diz que um Papai Noel Negro é bonito, automaticamente está se chamando de bonita também”.

Rodrigo França (à esquerda) interpretando Martin Luther King Jr

Thais Bernardes

Cursou Relações Públicas na UERJ onde ingressou pelo sistema de cotas. Através de um programa de intercâmbio da Universidade, formou-se jornalista pelo no Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris. Após a graduação especializou-se em audiovisual pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), na França. Atuou como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio.

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