“Atravessar o Atlântico com o cinema reafirma nossa ligação com a África”, diz ator Rei Black

Rei Black

Ator Rei Black - Foto: Cristiano Espirito

O ator Rei Black recebeu reconhecimento internacional no Inside Nollywood International Film Festival & Awards (INIFFAA), realizado na Nigéria, sede da Nollywood, considerada a segunda maior indústria cinematográfica do mundo. O artista foi destaque no evento por seu trabalho como protagonista do longa-metragem Proteção, dirigido por Alberto Sena e produzido pelo Coletivo Ponte Cultural.

O filme, que tem estreia prevista no Brasil ainda este ano, integra a programação de festivais internacionais que buscam fortalecer o intercâmbio cultural entre Brasil e países africanos.

Na produção, Rei Black interpreta Tarik, um biomédico recém-chegado ao Brasil que vê sua vida mudar ao tentar salvar um amigo. A tentativa de ajudar o coloca em uma situação de risco que ameaça sua carreira e o envolve em um conflito para o qual não estava preparado.

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Ator Rei Black – Foto: Cristiano Espirito

Segundo o ator, o personagem também representa dilemas vividos por muitos brasileiros negros em relação à própria história e identidade.

“Tarik carrega uma ancestralidade que ele próprio ainda não reconhece. Ele representa muitos negros brasileiros que foram afastados da própria origem e acabam reproduzindo heranças coloniais sem perceber. O maior desafio para mim, que já tenho uma consciência racial construída, foi assumir o lugar de aluno diante dessas questões e me permitir ser atravessado por algo que o personagem ainda não compreende”, afirma.

Para o artista, participar de um festival de cinema na África também carrega um significado simbólico relacionado à história e à identidade da diáspora africana.

“Atravessar o Atlântico com o cinema reafirma que a África é parte central da nossa história e do nosso imaginário. Também reforça um caminho que Zózimo Bulbul já apontava para o nosso cinema: a necessidade de reaproximar África e Brasil, entendendo a diáspora como continuidade do povo africano, e não como ruptura”, diz.

Esta não é a primeira vez que o trabalho de Rei Black chega ao continente africano. Em janeiro deste ano, o ator esteve no Benim para apresentar o documentário Caminho de Volta, obra da qual é roteirista, produtor e diretor. Agora, retorna ao diálogo com o continente africano com o longa Proteção, desta vez como ator protagonista.

“Pela segunda vez tenho um trabalho dialogando com a África. Isso me coloca na responsabilidade de continuar fortalecendo essa conexão. Continuarei dando seguimento aos passos dos nossos ancestrais”, afirma.

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Nascido e criado em Mesquita, na Baixada Fluminense, Rei Black tem uma trajetória marcada pela valorização da memória e da cultura negra. Ele é criador da série Histórias da Nossa Área, que destaca personagens e manifestações culturais do município.

No teatro, foi protagonista do espetáculo Para Meu Amigo Branco e recebeu indicação ao Prêmio Shell de Melhor Ator em 2023 pelo trabalho em O Grande Dia. Também dirigiu Amor de Baile, vencedor do Prêmio Shell na categoria Música, espetáculo que aborda a efervescência cultural do movimento Black Rio.

Segundo o ator, sua produção artística está diretamente conectada à história e à ancestralidade.

“Minha trajetória está ligada à minha ancestralidade porque eu nunca esqueço de onde eu venho. Estou sempre atento à minha origem e ao caminho que quero construir. Não esquecer de onde eu venho é o que mantém minha trajetória conectada à ancestralidade”, afirma.

Para Rei Black, essa escolha artística não é uma estratégia, mas parte de sua identidade. “Meu compromisso artístico é com a humanidade. Muitas vezes pessoas pretas não são vistas como seres humanos. Para mim, é essencial partir da minha ancestralidade e da história do meu povo para que o mundo conheça a arte a partir da nossa perspectiva”, conclui.

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