O impacto do racismo na saúde mental da população negra tem sido apontado por pesquisadores e especialistas como um dos efeitos menos visíveis, porém persistentes, das desigualdades estruturais no Brasil. A exposição recorrente a situações de discriminação, exclusão e violência simbólica pode gerar sobrecarga emocional, estresse crônico e adoecimento psíquico ao longo da vida.
Estudos nacionais e internacionais indicam que a vivência de racismo está associada a maiores índices de ansiedade, depressão e sofrimento psicológico. Dados do Atlas da Violência 2023, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, mostram que a população negra está mais exposta a contextos de vulnerabilidade social e violência, fatores que também impactam a saúde mental.

Para a consultora em letramento racial e de gênero Tainara Ferreira, o racismo deve ser compreendido como um processo sistêmico, que atravessa instituições e relações cotidianas. “Se o racismo é sistêmico, o cuidado também deve ser”, afirma. Segundo ela, o enfrentamento do problema exige políticas estruturadas de acolhimento, formação continuada de equipes e protocolos claros para lidar com denúncias de discriminação.
A especialista destaca que ambientes públicos e privados, incluindo espaços de lazer e entretenimento, precisam incorporar o letramento racial como diretriz permanente de gestão. A ausência de preparo institucional, afirma, pode intensificar o sofrimento emocional de pessoas que já lidam com experiências acumuladas de discriminação.
O debate ganhou repercussão recente após a morte do psicólogo e mestrando Manoel Rocha Reis Neto, de 32 anos, no Recôncavo baiano. Dias antes, ele havia relatado nas redes sociais ter sofrido racismo em um camarote durante o Carnaval de Salvador. O caso é tratado como suspeita de suicídio pela Polícia Civil da Bahia. A situação reacendeu discussões sobre os efeitos do racismo na saúde mental, inclusive entre profissionais da área.
LEIA TAMBÉM: Mais de 40% dos jovens negros da Geração Z relatam não conseguirem cuidar da própria saúde mental
No campo normativo, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 passa a exigir, a partir de 1º de maio, a gestão de riscos psicossociais pelas empresas. Para Tainara, a medida representa avanço, mas deve considerar também os impactos de violências estruturais como o racismo. Segundo ela, políticas de prevenção e acolhimento precisam dialogar com saúde, educação, cultura e atendimento ao público.
Especialistas apontam que reconhecer a dimensão estrutural do racismo é condição para formular respostas institucionais mais eficazes, capazes de reduzir danos e promover ambientes mais seguros para todos.










