O dia 16 de março é o dia Nacional da Conscientização sobre as Mudanças Climáticas no Brasil, decretado pela Lei 12.533. Desde 2011 a data que tem como objetivo criar um alerta, mais um, para a crise climática que nos assola como sociedade, como comunidade e como espécie pois coloca em xeque a viabilidade biológica do planeta em fornecer suporte para o desenvolvimento da vida como nós conhecemos. E essa data é um chamamento para todos nós, sobretudo como cidadãos, para tomarmos
consciência de fato sobre o real significado do termo “mudanças climáticas”, uma vez que as mudanças se tornaram uma realidade que podem, em curto prazo, provocar alterações irreversíveis no ambiente em que vivemos.

Mas vamos por partes. O que de fato é essa consciência que precisamos criar? Lembrando que nós, como espécie, não somos lá muito bons em perceber ou dar valor aos riscos de vida, mesmo quando eles estão bem diante de nós. Já fomos capazes de dizimar ecossistemas inteiros simplesmente por negligencias um fato muito simples: sem a preservação ambiental, não há perpetuação da vida… inclusive a nossa, claro. Mas isso não é fator isolado, uma vez que ao longo dos últimos 100 mil anos (o nosso tempo estimado de existência do Homo sapiens na Terra) fomos capazes de desviar cursos de rios, aterrar lagoas, destruir montanhas, desmatar florestas e extrair recursos naturais como se não houvesse amanhã. O amanhã chegou e não dá mais para fugir disso.
O dia da consciência sobre a crise climática não só nos conscientiza, mas também cobra de nós uma tomada de posição. Não dá mais para não acreditar nos efeitos das mudanças no clima do mundo, seja por desinformação ou má fé. Até porque os efeitos são sentidos com uma frequência cada vez maior e com intensidades cada vez mais catastróficas. Basta fecharmos os olhos para que alguma tragédia ambiental apareça na nossa memória como: as chuvas em Petrópolis/RJ em 2022, o alagamento monumental no Rio Grande do Sul em 2024, os incêndios florestais na Califórnia/EUA em 2018, assim como em Los Angeles/EUA em 2025, além das ondas de Calor que assolaram o Brasil no início deste ano. Para onde quer que se olhe, há uma tragédia ambiental provocada pelo aquecimento do planeta.
Os dados obtidos por diversos centros de pesquisa climática ao redor do mundo são estarrecedores. Segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), desenvolvido pela Organização das Nações Unidas (ONU Meio Ambiente) a partir dos trabalhos de um grupo de cientistas que monitoram as mudanças climáticas no planeta. E os dados do 6º relatório do IPCC publicado em 2023 mostram que falhamos muito na tentativa de manter o aquecimento do planeta em 1,5ºC acima do período pré- industrial.
Não apenas falhamos como há, cada vez mais, estímulos para a produção de gases do efeito estufa através da extração de petróleo, uso de termelétricas, aumentos na produção de veículos movidos a combustíveis fósseis, promoção do processo de industrialização, sem esquecer as queimadas que consomem biomas Brasil afora para o aumento da área de pasto e de cultivo que impulsionam o agronegócio, entre tantos outros fatores. Mas, nada disso é à toa. Há método e comando por parte de muitos líderes mundiais que, definitivamente, viraram as costas para o planeta. E todos nós pagamos essa conta.
Donald Trump é o expoente desse movimento retrógrado que promove a retirada de investimentos em pesquisas na área ambiental, que estimula cada vez mais a extração de petróleo, o aumento da industrialização, além de estabelecer a saída de seu país dos acordos internacionais ambientais. E ele não está só, uma vez que isso cria um precedente perigoso para um mundo que está às vésperas de um colapso ambiental provocado pela crise climática. O conservadorismo dos governos de extrema-direita
abomina tudo o que está relacionado a aceitação da crise climática, desprezando todas as informações fundamentais da ciência sobre esse tema. Afinal, como bons negacionistas que são, cumprem a risca o seu papel de promoverem estragos em nome do capital.
Esse modus operandi das grandes lideranças mundiais intensifica dois fatores importantes: o aumento significativo da pobreza e da desigualdade social, assim como o surgimento cada vez maior de bilionários no mundo. A existência de bilionários é, por si só, uma indecência. Porém, quando pensamos no impacto ambiental provocado por sua existência, o cenário é ainda mais assustador. O 1% mais rico da população mundial é formado por 77 milhões de pessoas em um planeta que já ultrapassou a marca dos 8 bilhões de seres humanos. E esse grupo, sozinho, foi responsável por 16% do total das emissões dos gases do efeito estufa na atmosfera. A título de comparação, esse é o percentual de gases do efeito estufa produzido por 66% da população mais pobre do planeta. Sim, estamos falando que 77 milhões de pessoas, produzem o mesmo impacto ambiental que 2/3 da população mundial, ou seja, 5 bilhões de pessoas.
Estes e outros dados sobre as causas e efeitos da crise climática, foram produzidos por muitas instituições como o Instituto Oxfam Internacional, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, WWW-Brasil, ONU meio ambiente e tantos outros colaboradores ao redor do planeta estão debruçados em, além de apresentar os dados, fazer um alerta sobre a urgência de ações capazes de frear a velocidade dos impactos das mudanças climáticas. Mesmo que isso pareça impossível. Só no Brasil, segundo os
dados, há regiões onde a temperatura já passou dos 3ºC acima do período pré-industrial. E isso afeta absolutamente tudo no desenvolvimento do país.
As mudanças climáticas intensificam as secas no cerrado estão cada vez mais intensas, impactando a atividade do agronegócio. Isso se relaciona com as chuvas torrenciais e surgimento dos ciclones na região sul. O Sudeste sofre com chuvas desproporcionais que se alternam com ondas de calor cada vez mais prolongadas. O fluxo de chuvas na Amazônia aumenta o fluxo de matéria orgânica nos grandes rios, o que pode aumentar o seu processo de eutrofização provocando mortandade de peixes e contaminação da população ribeirinha. Regiões na Caatinga brasileira passaram de semi-áridas para regiões áridas e desérticas, inviabilizando o desenvolvimento da vida nesses locais. As queimadas são cada vez mais frequentes e avassaladoras e impactam biomas como o Pantanal, o Cerrado, a Mata Atlântica e a Amazônia. Todos nós vemos, sentimos e sofremos com essa crise. Não há como negar.
As alterações do clima são provocadas e intensificadas pela humanidade e apresenta desdobramentos muito perigosos, como crises humanitárias, na biodiversidade planetária e nos recursos naturais em diversas partes do mundo. Os pobres, formados por populações periféricas, de povos originários, ribeirinhos e caiçaras, da população negra e tantos outros grupos invisibilizados por aqueles que
lucram muito com a crise climática e seguem negligenciando seus efeitos, são as maiores vítimas desses novos tempos de mudanças climáticas irreversíveis. Portanto, o dia da consciência para as mudanças climáticas é um bom momento para o despertar não apenas de consciência, mas, sim, do sentido de urgência que berra a plenos pulmões, para quem quiser ouvir, que não há plano B, quem não há outro planeta e que não há milagres. Tudo indica que a crise climática, provocada por nós, veio para ficar e que ainda há tempo de reverter os seus danos. Mas quisermos continuar vivos na Terra, é preciso ter pressa, muita pressa.
*Marco Rocha é biólogo, professor, palestrante, comunicador e pesquisador com mestrado em Biologia celular (Fiocruz), Doutorado em Biotecnologia Vegetal (UFRJ e University of Ottawa/Canadá), com Pós-doutorado em Plantas medicinais com atividade antiviral (Fiocruz), com dezenas de artigos e capítulos de livros publicados em literatura científica. Professor universitário a mais de vinte anos, atuando nos cursos da área de saúde das universidades públicas (UFF e UFRJ) e nas principais universidades privadas do Rio de Janeiro. Marco Rocha também é ator, escritor, comunicador e administra as mídias sociais @aquipensando01 onde promove divulgação científica, reflexões sobre o cotidiano, discussões sobre etarismo e ativismo antirracista. Autor dos livros @aquipensando01 – coleção instapoetas e co-autor do livro Pretagonismos.
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