Galinhas já se alimentam com farelo rastreável por blockchain enquanto 54,7 milhões vivem insegurança alimentar

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Ovo rastreável por blockchain contrasta com fome no Brasil - Foto: Pexels

Galinhas poedeiras no Brasil já se alimentam com farelo de soja rastreável por blockchain, tecnologia que permite acompanhar a origem do grão desde a fazenda até a ração das aves. A inovação chega às granjas em um momento em que 54,7 milhões de brasileiros vivem algum grau de insegurança alimentar, segundo a PNAD Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

A iniciativa faz parte de um acordo entre a Mantiqueira Brasil e a Bunge para a compra inicial de 12 mil toneladas de farelo de soja com menor pegada de carbono. Segundo a Bunge, o insumo apresenta emissão entre 40% e 70% inferior à média brasileira, com indicadores auditados por terceiros e baseados em dados coletados diretamente nas fazendas.

O processo de rastreabilidade ocorre por meio de uma plataforma em blockchain que reúne informações de toda a cadeia produtiva. “Trata-se não apenas de uma aposta futura, isso já é pauta presente. A adoção de práticas regenerativas e rastreabilidade influencia diretamente o acesso a mercados mais exigentes”, afirmou Leandro Testa, diretor de Originação da Mantiqueira e de Novos Negócios da Solobom, em entrevista à Bloomberg Línea. A empresa afirma que o projeto começa como piloto e que não espera aumento de preços ao consumidor final.

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Ovo rastreável por blockchain contrasta com fome no Brasil – Foto: Pexels

O movimento ocorre em um contexto de consumo recorde de ovos no país. A média estimada é de 288 unidades por habitante em 2025, com projeção de superar 300 até 2026, colocando o Brasil entre os dez maiores consumidores do mundo. Cerca de 99% da produção é destinada ao mercado interno, impulsionada pelo alto custo de outras proteínas e pelo preço mais acessível do ovo.

Ao mesmo tempo, dados do IBGE indicam que 6,48 milhões de pessoas enfrentaram insegurança alimentar grave em 2024. No total, 18,9 milhões de domicílios convivem com algum grau de insegurança alimentar. O problema é mais intenso nas regiões Norte e Nordeste e em lares chefiados por mulheres, pessoas pretas e pardas.

A ração é uma das principais fontes de emissão de carbono na produção de ovos. Como parte do acordo, fazendas parceiras da Bunge também irão testar o fertilizante orgânico Solobom, produzido a partir do esterco das galinhas poedeiras. O adubo, com produção anual superior a 100 mil toneladas, já é utilizado em culturas como cana, café, soja e milho.

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A Mantiqueira, que tem a JBS como sócia desde 2025, investe em linhas como Happy Eggs e Fazenda da Toca, voltadas a práticas consideradas mais sustentáveis. A empresa também expandiu operações para os Estados Unidos após adquirir a Hickman’s Egg Ranch.

A adoção de tecnologias de rastreabilidade e práticas regenerativas na produção de ovos reflete exigências ambientais e de mercado, enquanto o alimento permanece como base da dieta popular em um país onde milhões ainda convivem com incertezas sobre o acesso diário à comida.

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