Mulheres, pescadores artesanais e moradores do Litoral Norte de Pernambuco formaram o grupo mais exposto ao petróleo durante o desastre ambiental que atingiu o Nordeste em 2019. É o que aponta um estudo conduzido pelo Instituto Aggeu Magalhães, da Fiocruz Pernambuco, com participação da Universidade Federal da Bahia. A pesquisa foi publicada na revista científica Cadernos de Saúde Pública.
O levantamento ouviu 1.259 pescadores vinculados a 27 colônias e associações do litoral pernambucano e analisou os níveis de exposição ao petróleo durante e após os vazamentos que contaminaram praias, manguezais e áreas de pesca. Segundo os pesquisadores, o Litoral Norte concentrou a maior proporção de pessoas classificadas como altamente expostas.

A classificação de alta exposição considerou situações de contato direto com o óleo, forte odor durante as atividades e relatos de irritação na pele, especialmente durante os trabalhos de limpeza das áreas atingidas. De acordo com os dados, as mulheres foram maioria entre os trabalhadores mais expostos, com predominância na faixa etária entre 45 e 59 anos.
Um dos autores do estudo, o pesquisador José Erivaldo Gonçalves, pós-doutorando em Saúde Pública na Fiocruz Pernambuco, afirma que o recorte de gênero identificado na pesquisa aponta para desigualdades na divisão do trabalho e no impacto do desastre sobre as populações tradicionais.
Segundo ele, a maior exposição está relacionada à atuação direta das comunidades na contenção dos danos ambientais. Diante da ausência de respostas rápidas e estruturadas dos órgãos públicos, pescadores e pescadoras assumiram a limpeza de praias, rios e mangues para proteger seus territórios e meios de subsistência.
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Esse trabalho, em grande parte, foi realizado sem Equipamentos de Proteção Individual adequados. A falta de orientação técnica e de protocolos de segurança favoreceu o contato direto com o petróleo, seja pela pele, pela inalação do odor ou pelo contato prolongado com resíduos que permaneceram no ambiente mesmo após a limpeza inicial.
O estudo aponta ainda que essas populações enfrentaram uma dupla exposição. A primeira ocorreu durante o contato direto no momento do derramamento e da limpeza emergencial. A segunda, de caráter contínuo, se deu no retorno às atividades de pesca artesanal em áreas ainda contaminadas, prolongando os riscos à saúde.
Com base em estudos internacionais sobre desastres semelhantes, como o vazamento ocorrido no Golfo do México em 2010, os pesquisadores alertam para possíveis impactos de longo prazo, incluindo problemas respiratórios, neurológicos, transtornos de ansiedade e estresse pós-traumático.
Diante desse cenário, o estudo reforça a necessidade de monitoramento contínuo da saúde das populações atingidas e destaca a importância de capacitar o Sistema Único de Saúde para identificar, acompanhar e tratar casos de exposição ambiental relacionados ao trabalho da pesca artesanal.










