Filhas e filhos de trabalhadoras domésticas fazem manifesto reivindicando que suas mães tenham dispensa remunerada por conta da pandemia do coronavírus

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Mais de 70 filhos e filhas de trabalhadoras domésticas de diferentes estados do Brasil fizeram um manifesto e enviaram à autoridades reivindicando dispensa remunerada destas das empregadas e diaristas pelos empregadores para que, assim, cumpram com as exigências de precaução no combate à propagação contagiosa do COVID -19.

O documento foi enviado a parlamentares, influenciadores e jornalistas, nesta sexta-feira (19). “O isolamento social é crucial e vai muito além da relação trabalhista. É uma maneira eficaz de evitar a exposição à aglomeração em transportes públicos e outras situações que favorecem a contaminação em massa, levando ao contágio comunitário, como já vem acontecendo. Fato que traz riscos aos empregadores e aos empregados”, ressalta o documento.

A ideia de redigir o manifesto foi da professora Juliana França, de 29 anos, filha de empregada doméstica. A moradora de Japeri, município com o pior Índice de Desenvolvimento Humanos (IDH) do estado do Rio de Janeiro, segundo dados da Nações Unidas pelo Desenvolvimento (Pnud) e do Ipea, decidiu reunir outros filhos(as) de empregadas para que suas mães pudessem entrar em quarentena remunerada e se protegerem do Covid-19.

Juliana França (29) e sua mãe Catarina da Silva (55)

“Minha mãe trabalha há mais de 40 anos como empregada doméstica e hoje ela não tem nenhum vínculo empregatício. Ela é diarista, trabalha em 2 casas e tenho uma madrinha com mais de 70 anos que também trabalha como empregada doméstica. Isso me motivou para escrever o manifesto e assim ajudar outras diaristas e empregadas”, contou Juliana.

A professora diz não saber como manter sua família caso sua mãe faça a quarentena mas não seja remunerada: “Na minha casa somos seis mulheres e minha mãe é a única provedora do lar. Caso ela fique sem receber, terei que dividir um salário mínimo que ganho na escola onde dou aula com a minha família, explica a professora.

A presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Domésticos do município do Rio de Janeiro, Maria Izabel Monteiro, se emocionou ao dizer sentir orgulho de ver esta geração de filhos de empregadas: “Ver filhas e filhos de trabalhadoras domésticas se unindo, isso é revolução. Fico muito triste quando vejo filho de doméstica ter vergonha de suas mães. Compartilhei o manifesto com muitas pessoas pois isso é muito importante”, contou emocionada.

O Brasil emprega cerca de 7 milhões de empregadas (os) domésticos – o maior grupo no mundo. São três empregados para cada grupo de 100 habitantes, boa parte destes trabalhadores não possuem carteira assinada.

Confira abaixo o manifesto na íntegra e clique aqui para participar do abaixo assinado.

MANIFESTO DAS FILHAS E DOS FILHOS DE EMPREGADAS (OS) DOMÉSTICAS (OS) E DIARISTAS

Ao poder público, empregadores e empregadoras de domésticas e diaristas, e toda sociedade civil.

Esta carta manifesto tem como objetivo acionar a política do bem comum, em que ações individuais são primordiais para o bem-estar da coletividade. Levamos em consideração que, segundo a OMS, estamos inseridas(os) em uma pandemia, com recomendações internacionais de ficarmos em isolamentos e quarentenas voluntárias, sendo necessária, momentaneamente, a restrição do convívio social.

E ao constatarmos que nossas familiares que são empregadas domésticas e diaristas continuam trabalhando normalmente, salientamos a EMERGÊNCIA de atender à quarentena estipulada pelas autoridades e reivindicamos a DISPENSA REMUNERADA das empregadas domésticas e diaristas pelos empregadores para que, assim, cumpram com as exigências de precaução no combate à propagação contagiosa do COVID-19.

O isolamento social é crucial e vai muito além da relação trabalhista. É uma maneira eficaz de evitar a exposição à aglomeração em transportes públicos e outras situações que favorecem a contaminação em massa, levando ao contágio comunitário, como já vem acontecendo. Fato que traz riscos aos empregadores e aos empregados.

Em Miguel Pereira, sul do Estado do Rio de Janeiro, uma senhora de 63 anos veio a óbito infectada pelo novo coronavírus. A mesma continuou a trabalhar como empregada doméstica na casa de sua empregadora, no RJ, que já havia sido diagnosticada com o COVID-19, ao voltar de uma viagem à Itália.

As empregadas domésticas pertencem a uma categoria de trabalhadoras que representam o Brasil. Segundo o IBGE, profissionais que prestam serviços domésticos – o que pode incluir jardineiros, caseiros, empregadas domésticas e diaristas – representam um total de 6,3 milhões de trabalhadores. Todos esses profissionais estão economicamente ativos no País.

Desse grupo, 1,5 milhão trabalham com carteira assinada. Outros 2,3 milhões de trabalhadores atuam sem carteira assinada e 2,5 milhões são diaristas, o que as torna um grupo vulnerável diante do cenário atual.

A situação de pandemia indica que o maior número de trabalhadores neste momento (de grande risco de contágio) estão desamparados por leis trabalhistas. As diaristas estão em situação ainda mais precária e vulnerável, sem contratos legais que possibilitem, por exemplo, negociar adiantamento de férias. Por isso, encontram ainda mais obstáculos em se manterem e garantirem a segurança de seu coletivo familiar, pois recebem por dia trabalhado.

Há anos nossas mães, avós, tias, primas dedicam suas vidas a outras famílias, somos todas (os) afetadas (os) por essa “relação trabalhista” de retrocesso e modos escravistas. Tivemos nossas vidas marcadas por esse contexto, que precisa ser repensado por toda sociedade, sobretudo, pelos empregadores. Nesse contexto, nós, filhas e filhos de empregadas domésticas e diaristas, vivenciamos os incômodos relatados por nossas parentes:

“No meu caso, minha vó trabalhou anos em uma casa de família. Ela tinha seus 63 anos, chegava lá às 6h duas vezes na semana, depois passou a cozinhar, a passar, a lavar terraço… Ganhando apenas R$100, sem a passagem. Em janeiro ela veio a óbito e a mensagem recebida pelo whatsapp foi “ Arrumei outra pessoa para pôr no seu lugar, já que a senhora não veio mais, a minha casa tá toda suja porque as paredes foram pintadas.”
Nicole Nascimento, Japeri/RJ

“Minha mãe trabalha desde os 6 anos de idade como doméstica e diarista, e a vi muitas vezes ir trabalhar doente para manter seus compromissos. Mesmo falando sobre os riscos do Corona, ela não tem como faltar com risco de ser demitida. As domésticas estão correndo grandes riscos e também são uma grande possibilidade de contágio, principalmente nos transportes nas metrópoles”.
Marcelo Rocha – Mauá/SP

“ Mainha é diarista todo dia uma casa diferente, nesta
segunda feira quando explodiu o lance do coronavírus meu irmão me manda um zap dizendo que a nossa mãe não queria entrar em casa pois a patroa teria dito a ela que estava com febre e que era para minha mãe ficar atenta. Esse episódio fez mainha tomar um banho de álcool em gel, não por desinformação era por DESESPERO de alguém que ela ama dentro de casa pegar o coronavírus.
Yane Mendes, 28 Anos- Totó-Recife PE

“Me recordo de várias histórias, do trabalho excessivo, da sobrecarga e ainda presencio ela trabalhando com 66 anos de idade mesmo aposentada. Uma vez aconteceu uma situação, uma não, várias vezes, ela precisou se ausentar do trabalho por motivo de doença e pediu para que ligasse avisando da sua falta, assim fiz e ouvi: “Mas quando sua mãe vai voltar?” Na hora minha resposta foi certeira: “Simples, quando ela melhorar!”.
Laura Cristina, 29 anos- Santa Luzia/MG

Dito isto, apresentamos medidas concretas que podem e precisam ser cumpridas pelos empregadores, visando o bem comum, sendo elas:

Dispensa remunerada imediata de domésticas, com carteira assinada ou informais, e de diaristas; Adiantamento das férias em sua totalidade ou de forma parcial; Caso o empregado more na casa do empregador e esteja em grupo de risco, o mesmo não poderá ser colocado em situações de risco de contágio, como: ir a supermercados, farmácias, shoppings e demais espaços públicos, evitando assim, quaisquer tipo de aglomerações.

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Thais Bernardes

Formada em jornalismo pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França, Thais Bernardes é jornalista, fundadora e CEO do portal Notícia Preta e podcaster do Canal Futura. Antes de concluir seus estudos na Europa, Thais cursou Relações Públicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ingressou através do sistema de cotas. Após atuar como produtora no canal de TV France 2, em Paris, foi repórter no Jornal Extra, na rádio BandNewsFM e coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio. Em novembro de 2018 a jornalista decidiu criar o portal Notícia Preta como forma de combater, através do jornalismo, o racismo e as desigualdades sociais.

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