Ícone do site Notícia Preta

Diversidade e inclusão é ter uma mulher negra na liderança da sua equipe

APOIE O NOTÍCIA PRETA

Por Iane Pessoa*

Quantas mulheres negras você conhece que estão numa posição de liderança ou gerência na sua empresa? Começo com este questionamento, pois diante do avanço das pautas de Diversidade e Inclusão no mercado de trabalho, a participação de mulheres negras ainda é baixa e são poucas as iniciativas que buscam desenvolver e acelerar estas carreiras.

Foto: Freepik

Atualmente, as mulheres negras formam o maior grupo populacional dentro do Brasil, representando 29% da população, de acordo com os dados do IBGE. E mesmo que em maioria absoluta, são elas que formam a minoria nos cargos de gerência e liderança, com apenas 2,6% de participação, de acordo com o estudo Diversidade, Representatividade & Percepção – Censo Multissetorial da Gestão Kairós, de 2021. E por que isso? Por que as pautas de ESG parecem não chegar para mulheres negras?

Para responder a esta pergunta, coloco uma citação da filósofa e pensadora negra brasileira, Sueli Carneiro, que aborda um feminismo antirracista e intersecional: “A unidade na luta das mulheres em nossas sociedades não depende apenas da nossa capacidade de superar as desigualdades geradas pela histórica hegemonia masculina, mas exige, também, a superação de ideologias complementares desse sistema de opressão, como é o caso do racismo”

E neste mês da Mulher Negra, Latina e Caribenha é preciso escancarar as feridas das mulheres pretas e pardas marcadas simultaneamente pelo machismo e racismo,  desde o período colonial. O mercado de trabalho também precisa retirar esta venda que tapa os olhos sobre a exclusão sistêmica das mulheres negras e compreender a perspectiva de gênero como ampla, multifacetada e, principalmente, plural.

Leia também: E eu não sou uma mulher? O racismo no mercado de trabalho

Assim, quando falamos que as mulheres avançam no mundo corporativo e avançam cada vez mais em suas carreiras, estamos falando de uma mulher universal que apenas contempla mulheres brancas, urbanas, cisgêneros e com poder aquisitivo. Destaco que a maioria destas iniciativas que aceleram mulheres nos cargos de gerência, também são uma ferramenta para consolidar a supremacia branca em espaços de poder.

Mas onde está a mulher negra na sua empresa? Em maioria, estarão em posições de serviços, como mulheres da limpeza, cozinheiras, recepcionistas ou em baixas posições dentro da hierarquia, como estagiárias, aprendizes ou analistas. E neste convite para “mulheres no poder”, em que os times de D&I recrutam em seus processos seletivos, não alcança mulheres negras, periféricas, travestis e com deficiência, pois ainda existem vieses inconscientes e discriminatórios que impedem que essas mulheres sejam consideradas para as vagas.

Para começar a mudar esta realidade é preciso se incomodar, verdadeiramente. É preciso questionar o tempo todo por que mulheres negras não estão em posições de liderança, ou por que ganham menos comparado a mulheres e homens brancos, ou por que não se contrataram mulheres negras nos últimos meses ou por que não havia nenhuma mulher negra para ser entrevistada, durante os processos seletivos?

O incômodo é a força da mudança que traz, além de diversidade e inclusão, mas também inovação para dentro da sua empresa. Como maior grupo populacional do país, as mulheres negras são múltiplas e trazem em suas vivências empatia, resiliência, escuta ativa, empoderamento, senso de dono; algo que uma faculdade elitista ou um intercâmbio de idiomas não ensina. Se a sua empresa quer apostar em Diversidade e Inclusão, é preciso entender que quando a mulher negra se movimenta, toda a sociedade se movimenta com ela.

*Ianne Pessoa é especialista em D&I da Condurú Consultoria, ativista social, defensora dos Direitos Humanos e graduada em Serviço Social.
Sair da versão mobile