Em Pernambués (BA), a dança do ventre tem despertado a autoconfiança das mulheres

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A dança do ventre é uma das manifestações femininas mais executadas no oriente

Reportagem publicada originalmente pelo Coletivo baiano Entre Becos e replicado com autorização dos produtores do material

Mulher magra, cabelos longos, branca e sensual. Talvez essa ainda seja a representação que mais circula na internet ou no imaginário da população relacionada a dança do ventre. Mas, essa não é a imagem encontrada na Raksa Escola de Dança, no bairro de Pernambués, periferia de  Salvador.

Cris Azevedo, 43, professora e proprietária, acredita que o ensino da dança do ventre deve contemplar todos os corpos. Ao longo dos 20 anos de ensino, a professora tem observado nas alunas conflitos com a imagem.

A professora Cris Azevedo e as alunas da Raksa  Escola de Dança – Gabrielle Guido/Entre Becos 2023

“As mulheres com mais idade, as mulheres gordas, especialmente, acreditam que não podem praticar a dança do ventre. Para que a movimentação corporal aconteça, elas creem que precisam ter um determinado padrão. A gente tenta desfazer essa ideia, mas ainda é difícil”, conta.

Mostrar o corpo numa apresentação de dança pública deixou a assistente administrativa Lix Rego, 40, angustiada. “Sou alta, sempre fui muito forte e estive acima da média de peso das outras meninas. Em 2015, quando voltei a participar com frequência no Raksa, eu repetia: ‘Não vou me apresentar’”, lembra a moradora do Resgate. Mas, o incentivo das colegas fizeram com que mudasse de decisão.

A secretária e assistente administrativa Erika Marques, 46, integrante do grupo Raksa, também conta o desconforto sentido nas primeiras apresentações de dança que, aos poucos, conseguiu superar. “Esse é meu corpo e tenho que aceitar, porque vai me fazer feliz. Se tiver que dançar, será com este corpo que ganhei com a minha idade, com a minha experiência de vida, com filhos e não posso me negar”, diz a moradora de Pernambués.  

Para Cris, o controle sobre o corpo feminino na dança do ventre está ligado ao processo histórico de representação e difusão negativa, feita pelos colonizadores europeus,  da dança  praticada nos continentes asiático e africano.

“Os europeus demonizavam a dança do ventre. Diziam que era provocativa, com mulheres animalizadas. Diante da possibilidade da prática ser explorada no ocidente, eles retiraram, por exemplo, a imagem dos povos africanos e colocaram as pessoas brancas”.

A professora ainda explica que as imagens das dançarinas egípcias destoam das imagens propagadas.

No Egito, os cabelos das primeiras bailarinas, conhecidas como ghawazee, eram crespos e elas usavam tranças. Os corpos dessas dançarinas eram diferentes do padrão europeu. Nós compramos essa ideia equivocada”.

No artigo “O orientalismo na história da dança do ventre”, a pesquisadora Naiara Assunção explica que o imaginário sobre o oriente, construído e difundido pelos colonizadores europeus, estava direcionado a imagem da mulher que era “vista como inerentemente misteriosa, sensual e exótica. Essas imagens se consolidaram no imaginário ocidental, primeiro através das pinturas orientalistas do século XIX, depois através da cultura de massa, no século XX”.

Da esquerda para direita estão  Erica Marques, a professora Cris Azevedo, Rosemeire Silva e Lix Rego – Gabrielle Guido/Entre Becos 2023

Muito além da sensualidade

Com aulas às segundas, quartas e quintas, à noite, e aos sábados, pela manhã, o espaço de dança Racksa tem recebido mulheres de diferentes padrões interessadas no cultivo do bem-estar, a exemplo da administradora Rosemeire Silva, 50. 

“A dança do ventre é a minha terapia. Quando saio de casa para fazer minha aula, uma vez por semana, eu esqueço de casa, de trabalho, de marido, esqueço de tudo, porque aquele é meu momento”, enfatiza.

As aulas têm feito bem para Rosemeire, que também recebe o apoio e incentivo do marido. “Ele me auxilia e me dá suporte nas horas que mais preciso. E quando surgem comentários negativos, ele defende e diz que a dança do ventre é uma arte. Isso é muito legal, porque muitos homens têm uma visão errada da prática”.

Segundo Cris, a prática oferece muitos ganhos. “Traz benefícios como o fortalecimento muscular das pernas, do abdômen, dos ombros, além de ganhar postura”. A professora salienta que há uma mudança no estado emocional das alunas.

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“Muitas chegam tímidas. Com o passar do tempo, a prática da dança, o contato com outras pessoas, elas começam a ficar mais desinibidas e tranquilas. Minhas alunas entram na sala com astral e saem completamente diferentes”, pontua.

Na Raksa  é ensinada a dança do ventre de origem egípcia – Gabrielle Guido/Entre Becos 2023

Erika conta que as aulas são um momento dedicado para seu autocuidado, mas também é um espaço para o acolhimento das pessoas presentes. “Quando passo pelo portão, deixo meus problemas, minhas tristezas. Sinto o cheiro da essência e fico presente para dançar, para aprender e também para acolher.  Somos um grupo de mulheres que alinhamos coisas juntas, conversamos e nos apoiamos. Aqui é meu lugar, porque somos diferentes”.

Para Cris, ser professora de dança tem trazido novos aprendizados. “O ato de praticar a dança e ver o corpo fazer movimentos, que antes julgava impossível de realizar, é uma das coisas mais importantes da prática, além do contato com outras mulheres que passam por questões semelhantes com a imagem. Minha missão de vida é com a dança, é com o bem-estar de mulheres e de pessoas que queiram se sentir bem”, finaliza.

Reportagem de Rosana Silva, Fotografia de Gabrielle Guido e Edição de Cleber Arruda.

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