Carnaval na Nigéria preserva há 200 anos tradição afro-brasileira

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'Foliões' da Carreta dos Campos Brasileiros — Foto: Reprodução/LAGOS FANTI CARNIVAL

O Carnaval Fanti, celebrado na cidade de Lagos, na Nigéria, mantém viva há cerca de 200 anos uma tradição diretamente ligada à história de brasileiros negros que retornaram ao continente africano após o período da escravidão. Realizado anualmente no período da Páscoa, o evento reúne elementos culturais que atravessaram o Atlântico e foram ressignificados ao longo das gerações.

A origem da festa está no século XIX, quando ex-escravizados, em sua maioria de ascendência iorubá, retornaram ao continente africano, especialmente vindos do Brasil. Esse grupo passou a ser conhecido como Aguda e se estabeleceu em Lagos, onde formou bairros e comunidades que até hoje preservam traços culturais brasileiros.

‘Foliões’ da Carreta dos Campos Brasileiros — Foto: Reprodução/LAGOS FANTI CARNIVAL

Com o crescimento dessa população, os Aguda chegaram a representar cerca de 10% dos habitantes da cidade no final do século XIX. Regiões como Popo Aguda, Lafiaji e os chamados Campos Brasileiros surgiram a partir dessa presença, consolidando um território marcado pela memória da diáspora.

O Carnaval Fanti nasce justamente desse encontro entre tradições afro-brasileiras e a cultura iorubá local. O próprio nome da festa está ligado à palavra “fantasia”, do português, em referência às roupas e máscaras usadas nas apresentações. A celebração também dialoga com manifestações populares brasileiras, como a tradição dos caretas, comum em estados do Nordeste durante o período da Páscoa.

As apresentações são organizadas por diferentes grupos comunitários, ligados aos bairros formados pelos descendentes dos retornados. Entre eles, destacam-se coletivos que mantêm vínculos diretos com a história brasileira, como a Carreta dos Campos Brasileiros e a comunidade de Lafiaji.

Esses grupos utilizam cores, símbolos e performances que reforçam a conexão com o Brasil. Fantasias em verde e amarelo, coreografias coletivas e o uso de máscaras fazem parte das apresentações, que misturam elementos religiosos, culturais e históricos.

Exibição dos membros da banda de baile da Carreta — Foto: Reprodução/Instagram

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Além da dimensão cultural, o Carnaval Fanti também é um símbolo da diáspora negra e do movimento de retorno à África, revelando uma história pouco conhecida sobre os fluxos entre Brasil e continente africano após a abolição.

Nos últimos anos, o evento tem recebido novos investimentos do governo local, que busca fortalecer a preservação dessa herança cultural. Em 2025, o Carnaval Fanti foi oficialmente revitalizado como parte de uma política de valorização das tradições históricas de Lagos.

A celebração reúne milhares de pessoas e reafirma, a cada edição, os laços históricos entre Brasil e África. Mais do que um evento festivo, o Carnaval Fanti é um registro vivo da memória afro-brasileira no mundo e da continuidade de práticas culturais que resistiram ao tempo, à travessia forçada e às transformações sociais.

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