A frase vem carregada de memória e propósito: “Ser policial é, antes de tudo, ser humano.” Quem diz é o Major Maicon Pereira, oficial da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), hoje porta-voz e subcoordenador de Comunicação da corporação. Sua trajetória pessoal se entrelaça com a história de uma instituição bicentenária, marcada por hierarquia rígida, disciplina e, historicamente, por relações complexas com a população negra, mas também atravessada por novas presenças e novas possibilidades.
Antes da farda, Maicon foi faxineiro, office boy e atendente de fast food. “Eu era um jovem negro, muito pobre, que precisou trabalhar desde cedo. Sempre estudei, tinha bom desempenho escolar, estudava em escola particular com bolsa e praticava esportes. Ainda assim, ao sair da adolescência, não consegui acesso a um emprego formal que me permitisse crescer profissionalmente.” A Polícia Militar surgiu, então, como oportunidade concreta. “Quando a idade mínima do concurso foi reduzida de 21 para 18 anos, prestei a prova, fui aprovado e ingressei no curso de formação de soldados. Ao entrar na corporação, fui um dos soldados mais jovens de todo o Estado. Para mim, era a chance de existir socialmente, conquistar dignidade e vislumbrar um futuro possível.”

A percepção de que poderia ocupar espaços de liderança veio cedo. “O comandante-geral da Polícia Militar era o coronel Braz, um homem negro. Ver alguém que se parecia comigo ocupando o posto mais alto da instituição me fez acreditar que era possível crescer.” A partir dali, passou a traçar objetivos claros dentro da carreira.
Os primeiros anos, porém, foram marcados por episódios que moldaram sua visão de liderança. “Fui advertido, punido e até preso disciplinarmente por coisas mínimas, como um botão do uniforme que havia se soltado. Doía porque eu queria acertar, queria aprender, queria ser alguém dentro daquela farda.” A experiência virou princípio. “Decidi que, se um dia chegasse a um lugar de liderança, jamais repetiria aquele tipo de tratamento. Queria ser um líder que corrigisse sem humilhar.”
Outro episódio definiria sua compreensão sobre o papel do policial. Durante uma operação em comunidade, dois jovens foram presos. Pouco depois, os pais de um deles chegaram desesperados. “Eu parei. Parei a operação, parei o protocolo automático, e ouvi. Me coloquei no lugar deles.” No dia seguinte, soube que a cena havia sido registrada por um jornalista. “Ali eu entendi que o que toca as pessoas não é a força, é a empatia.”
A história pessoal do Major se desenrola dentro de uma instituição cujas origens remontam à Guarda Real de Polícia, criada em 1809, responsável, entre outras funções, por vigiar populações pobres, reprimir revoltas e capturar pessoas escravizadas em fuga. Estudos sobre a formação das polícias no Brasil indicam que esses aparatos nasceram vinculados à manutenção da ordem social e ao controle de grupos considerados indesejáveis. Essa herança histórica ainda permeia debates contemporâneos sobre uso da força, cultura institucional e confiança pública.

Hoje, normas como a Portaria Interministerial nº 4.226/2010 estabelecem que o uso da força deve seguir princípios de legalidade, necessidade e proporcionalidade, com preservação da vida como diretriz central.
Quando fala dos desafios atuais da segurança pública no Rio, Maicon é direto: “O principal desafio é lidar com crime organizado, desigualdade social e desconfiança institucional. Isso exige planejamento estratégico e políticas públicas que vão além da atuação policial.” Para ele, o equilíbrio entre combate ao crime e direitos fundamentais passa por “treinamento constante, respeito à legalidade e uso responsável da força”.
A presença de oficiais negros em posições de comando também compõe o pano de fundo dessa transformação. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam que pretos e pardos representam parcela significativa do efetivo das polícias militares, embora ainda sejam minoria nos altos postos. No Rio de Janeiro, a legislação estadual prevê reserva de vagas para candidatos negros em concursos públicos, medida que tende a ampliar essa presença nos próximos anos.
Para o Major, ocupar esse espaço tem peso simbólico. “Significa responsabilidade e representatividade. É a prova de que, apesar dos desafios históricos, é possível contribuir para mudanças internas e servir de referência para outros profissionais.”
Ao final, ele retorna ao ponto de partida. “Procuro sempre olhar para o outro da forma como gostaria que olhassem para mim. Se em algum momento eu falhar, que seja tentando acertar.”
E conclui, com a mesma serenidade de quem conhece a dureza do caminho: “Nem sempre teremos tudo. Mas sempre teremos a escolha de fazer o nosso melhor, com o que temos, no tempo que temos e nas condições que nos foram dadas.”










