79% das empreendedoras negras não têm reservas durante o isolamento social

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A coleta dos dados foi realizada entre os dias 31 de março e 2 de abril, 20 dias depois de a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar o estágio de pandemia da doença

Empreendedoras negras não possuem reservas durante o período de pandemia – Foto: João Alvarez/ASN Bahia

A pesquisa Mulheres negras: saúde financeira e expectativas diante da Covid-19, divulgada pelo Instituto Identidades do Brasil, em parceria com a Comunidade Empodera, EmpregueAfro e Faculdade Zumbi dos Palmares, mostrou que 79,4% das empreendedoras negras não possuem reservas financeiras para manter seu negócio no atual cenário econômico. Além disso, 48% afirmam que manter o negócio ativo é a principal necessidade atualmente. 

Ainda segundo a pesquisa, 44% das empreendedoras negras conseguem manter as portas abertas por apenas um mês com o que têm em caixa, e 4% conseguem sobreviver entre quatro e seis meses, na atual conjuntura. 

Vulnerabilidade profissional

Equivalente a 60 milhões de pessoas, segundo o IBGE, as mulheres negras representam o público mais vulnerável em termos de empregabilidade, tornando o tema ainda mais urgente. As entidades ressaltam que a preocupação com essas mulheres tem como base uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de 2018, que mostra que a taxa de desemprego das mulheres negras é 50% maior que a de mulheres não negras. 

Para o coordenador da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, Raphael Vicente, o estudo do Ipea apresenta dados contundentes para o apoio às mulheres negras. “Por isso, justamente, o mapeamento e o esforço para gerar ações concretas que apoiem as mulheres na redução dos possíveis impactos para suas carreiras e para seus negócios, justamente pensando em termos de sustentabilidade econômica da sociedade brasileira como um todo. Porque essas mulheres são, muitas vezes, arrimos de família, que, não só suas famílias, mas toda a roda econômica que gira em torno delas. Se elas ruírem, vão junto”, afirmou.

60 milhões de mulheres negras no Brasil, representando 28% da população brasileira – Foto: Tânia Rego

Nós por nós

Entidades negras formaram uma aliança em prol dessas empreendedoras e profissionais negras, buscando recursos, parcerias, além do compartilhamento de informações e conhecimento para a redução dos impactos do isolamento social e impulsionar o crescimento dos negócios dessas mulheres afetadas pela crise. “O trabalho da coalizão é, essencialmente, fazer essa ponte entre essa empreendedora que está lá na ponta, precisando de recursos de toda natureza e insumos, e de outro lado as fontes produtoras desses insumos e desses recursos, sejam eles quais forem”, disse Vicente.

Auxílio Emergencial

O auxílio proposto pelo governo federal é muito aquém ao que as empreendedoras têm de custo mensal para manutenção dos seus negócios. O levantamento apontou que 56% das empreendedoras afirmam ter despesa mensal média entre 1 mil e 5 mil reais, orçamento superior aos R$ 600 oferecidos pela União. Segundo a afro empreendedora Virgínia Marques, as estatísticas são reais e as soluções parecem estar muito distantes. “Eu estou me virando com as parcerias anunciadas e virtuais, mas que, de fato, não me trouxeram resultado. Até vendi algumas peças e só. Longe do orçamento mensal”, afirmou.

A coleta dos dados foi realizada entre os dias 31 de março e 2 de abril, 20 dias depois de a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar o estágio de pandemia da doença, o que ocorreu em 11 de março.

Profissionais de empresas

Os efeitos econômicos da pandemia não atingem apenas as empreendedoras, mas as profissionais de empresas também. Segundo a pesquisa, 44% das colaboradoras tiveram algum impacto na sua realidade orçamentária, como descontos em benefícios, desconto pelos dias de trabalho suspenso, até demissões. Uma em cada dez profissionais perdeu o emprego durante o período da pandemia. Uma mulher, que preferiu não se identificar, disse que foi desligada da empresa pouco tempo depois do início do isolamento social. “Eu estava empregada até dia 23 de março. Por estar pouco tempo na empresa e estar em um grupo de risco, fui demitida, assim como eu, tantos outros também foram. O amanhã não sei como será e tudo isso é muito angustiante”, lamentou.

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Igor Rocha

Igor Rocha é jornalista, nascido e criado no Cantinho do Céu, com ampla experiência em assessoria de comunicação e escritor nas horas vagas. Editor e coordenador regional do Notícia Preta

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