71% das nanoempreendedoras no Brasil são mulheres negras, aponta pesquisa

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Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil - arquivo

A maioria das nanoempreendedoras no Brasil é formada por mulheres negras. É o que revela a pesquisa “Nanoempreendedora em Foco: Identidade e o Paradoxo da Autonomia”, que aponta que 71% desse grupo pertence a esse recorte racial.

O estudo analisa a realidade de cerca de 120 mil trabalhadoras que atuam de forma informal ou autônoma, com baixa estrutura e faturamento anual inferior a R$ 40,5 mil. Para muitas delas, o empreendedorismo não surge como escolha, mas como necessidade de sobrevivência.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil – arquivo

Segundo a pesquisa, 75% das entrevistadas afirmam que começaram a empreender por falta de alternativas no mercado de trabalho. Em quase metade dos casos, o negócio é a principal fonte de renda da família, evidenciando o papel central dessas mulheres no sustento do lar.

A pesquisa também destaca o conceito de “chão pegajoso”, que ajuda a explicar por que essas mulheres permanecem na base da pirâmide econômica. Diferente do chamado “teto de vidro”, que limita o avanço de mulheres em cargos mais altos, o fenômeno descreve barreiras que impedem a mobilidade desde o início da trajetória, como responsabilidades com os filhos, problemas de saúde e instabilidade econômica.

O trabalho de cuidado aparece como um dos principais fatores dessa realidade. Cerca de 85% das nanoempreendedoras têm filhos, e mais da metade cuida de crianças em idade escolar. Sem acesso a creches ou redes de apoio, o empreendedorismo se torna a única forma de conciliar renda e maternidade.

Esse acúmulo de funções impacta diretamente a rotina. As mulheres dedicam, em média, 35 horas semanais ao trabalho doméstico não remunerado, além das atividades do próprio negócio. Mais da metade afirma trabalhar mais do que se estivesse em um emprego formal.

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A sobrecarga também afeta a saúde. Segundo o levantamento, 59% relatam problemas como ansiedade e estresse, enquanto 46% convivem com dores físicas ou limitações decorrentes do trabalho repetitivo e das longas jornadas.

Mesmo diante das dificuldades, muitas dessas mulheres seguem fora da formalização. Para 44%, o processo é visto como complexo ou inacessível, seja pelo medo de custos ou pela dificuldade de lidar com exigências burocráticas.

A pesquisa também mostra que a religiosidade desempenha um papel importante na vida dessas empreendedoras. Para 92%, a fé é um suporte emocional, e, em muitos casos, os espaços religiosos também funcionam como rede de apoio e até como local de venda dos produtos.

Apesar do cenário de vulnerabilidade, iniciativas de capacitação têm apresentado resultados. Programas voltados a esse público indicam aumento de renda em 70% dos casos, mostrando que o acesso a informação e oportunidades pode gerar mudanças concretas.

Os dados reforçam que o empreendedorismo feminino no Brasil, especialmente entre mulheres negras, está diretamente ligado a questões estruturais como desigualdade, acesso a trabalho e divisão do cuidado, impactando não apenas a renda, mas também a qualidade de vida dessas trabalhadoras.

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