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Mulheres negras não são tema para suas piadas

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Por Deives Rezende Filho*

Quantas vezes você já viu memes que comparam pessoas brancas com pessoas negras como forma de humor? Normalmente, as características de pessoas negras são colocadas de forma pejorativa em prol das “piadas”, que é qualificada como racismo recreativo. As maiores vítimas deste tipo de violência na internet são as mulheres negras, segundo os dados da tese de doutorado defendida na Universidade de Southampton, na Inglaterra, pelo pesquisador brasileiro e PHD em Sociologia Luiz Valério Trindade.

Na edição 21 do BBB, Rodolfo comparou o black power de João com a peruca do homem das cavernas – Foto: Reprodução TV Globo

De acordo com o estudo, que teve mais de 109 páginas de Facebook e 16 mil perfis de usuários analisados, 81% das vítimas de discurso depreciativo nas redes sociais são mulheres negras entre 20 e 35 anos.

Contudo, o racismo recreativo não está presente apenas na internet. Sendo ele uma das ferramentas do racismo estrutural, sempre esteve presente em todas as facetas da nossa sociedade, seja por meio de piadas cotidianas, programas de televisão, filmes, séries e outros.

Um programa brasileiro de grande sucesso na televisão brasileira nos anos 80 foi Os Trapalhões, que tinha um de seus personagens centrais do quarteto o humorista Mussum, um alcoólatra que fazia piadas sobre sua condição de homem negro.

O humor racista é uma estratégia para manter as estruturas raciais de privilégio branco ao reproduzir sátiras que perpetuam violências contra a população negra. As piadas expressam diversos estereótipos negativos da população negra, fomentando a ideia de que as mesmas não podem ter respeito social.

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Um episódio recente de racismo recreativo que aconteceu em um dos programas de maior audiência do Brasil, o Big Brother Brasil 2021, foi quando o ex-participante Rodolffo Matthaus comparou o cabelo black power de João Luiz com a peruca da fantasia do monstro de homem das cavernas. O racismo recreativo carrega uma problemática ainda maior que, aos indivíduos serem acusados de racismo, tentam se afastar da culpa com o pressuposto do humor.

Num contexto global, uma das situações mais comentadas neste ano foi o caso da cerimônia de premiação do Oscar, quando o comediante Chris Rock fez uma piada sobre os cabelos de Jada Smith, que sofre de alopécia – doença que afeta majoritariamente mulheres negras.

A “brincadeira” reforça, além de um lugar de dor, estereótipos relacionados a mulheres negras. Uma pesquisa da Universidade Duke, nos Estados Unidos, mostra que mulheres pretas com cabelo natural são vistas como menos profissionais no ambiente de trabalho em relação àquelas que alisam os fios.

É importante destacar que, mesmo que a piada tenha vindo de um homem negro, é uma forma de reprodução do racismo recreativo. Entretanto, pessoas negras não são racistas e sim vítimas dessa estrutura social, assim como as mulheres não podem ser machistas e sim reproduzir o machismo.

Antes deste episódio com Jada Smith, o próprio Chris Rock produziu um documentário em 2009, intitulado como “Good Hair”, sobre a importância do cabelo das mulheres pretas estadunidenses e a pressão para ter “cabelo bom”.

Deives Rezende Filho é especialista em ética, diversidade e inclusão, e fundador e CEO da Condurú Consultoria. 

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