Mulheres recebem apenas 10% do total de direitos autorais distribuídos no Brasil e 65% afirmam já ter sido alvo de assédio no mercado da música. Os dados fazem parte da edição 2026 do estudo “Por Elas Que Fazem a Música”, divulgado pela União Brasileira de Compositores (UBC), que traça um retrato da desigualdade de gênero no setor.
O levantamento revela que, apesar do aumento na presença feminina, a distribuição de renda segue concentrada. Entre os 100 maiores arrecadadores da UBC, apenas 11 são mulheres. Ainda assim, houve um leve avanço na posição das artistas mais bem colocadas, com a melhor colocação feminina subindo do 21º para o 16º lugar.
A desigualdade também aparece na divisão interna dos rendimentos. As autoras concentram 73% da arrecadação entre mulheres, enquanto intérpretes ficam com 23%. Já produtoras fonográficas e versionistas representam apenas 1% cada, evidenciando a baixa presença feminina em áreas estratégicas da indústria.

Mesmo com esse cenário, o número de mulheres associadas à UBC cresceu 229% desde 2017. O aumento, no entanto, ainda não se traduz de forma proporcional em ganhos financeiros, indicando barreiras estruturais no acesso à renda e ao reconhecimento.
Além da desigualdade econômica, o estudo aponta um ambiente marcado por discriminação e violência. Entre mais de 280 mulheres ouvidas, 65% relataram já ter sofrido algum tipo de assédio no mercado musical. Os casos incluem assédio sexual (74%), verbal (63%) e moral (56%).
Os impactos vão além das situações pontuais. Segundo a pesquisa, 75% das mulheres afirmam ter sofrido consequências emocionais, e metade disse ter se afastado de ambientes ou relações profissionais após episódios de violência. Em 96% dos casos, os autores das agressões foram homens.
A dificuldade de denúncia também aparece como um problema central: 49% das mulheres disseram não ter buscado apoio ou não ter compartilhado as situações vividas, o que evidencia barreiras institucionais e culturais no enfrentamento da violência no setor.
A discriminação no cotidiano profissional também é recorrente. Entre as entrevistadas, 63% disseram ter sido ignoradas ou interrompidas em reuniões, 59% relataram comentários que desqualificaram sua competência e 52% afirmaram ter tido créditos omitidos ou minimizados.
O estudo também aponta impactos específicos sobre mulheres com filhos. Entre as participantes que são mães, 60% afirmaram que a maternidade afetou negativamente a carreira, com redução de oportunidades, menos convites para trabalhos e comentários preconceituosos.
A presidenta da UBC, Paula Lima, destacou que o crescimento da presença feminina na entidade representa um avanço, mas ainda insuficiente diante das desigualdades. “O crescimento acumulado de 229% traduz não apenas a ampliação de oportunidades, mas histórias de mulheres que há anos lutam por espaço, reconhecimento e voz”, afirmou.
Já a diretora da entidade, Fernanda Takai, reforçou que o setor ainda está distante da equidade. “Autoras, intérpretes e produtoras ocupam apenas 17% da base total da associação. A indústria da música precisa ser mais representativa e não vamos perder esse foco”, disse.
Para a UBC, os dados indicam que, apesar de avanços pontuais, a indústria musical brasileira ainda enfrenta desafios estruturais para garantir condições mais justas de trabalho, remuneração e segurança para as mulheres.










