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Morreu no Carrefour atrapalhando o lucro

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Por: Jorge Santana – historiador, pesquisador e documentarista

O hipermercado francês tem no seu nome uma palavra que, em português, significa  cruzamento. Contudo, na ex-colônia francesa, os religiosos do vodum cultuam o orixá chamado de Exu como “Maître Carrefour”, a qual a tradução mais exata seria “Dono na encruzilhada”. Pois bem, no Supermercado Carrefour da capital pernambucana, um trabalhador fechou os caminhos dos lucros. Um representante de vendas morreu no meio do salão de vendas. Isso, em pleno início do expediente da mega loja. Diante da tragédia, o supermercado optou pela venda em detrimento da humanidade.

Moisés Santos teve um mal súbito e faleceu antes da loja abrir – Foto: Divulgação/Internet

O trabalhador morreu dentro do supermercado Carrefour, em Recife. Teve um mal súbito e morreu na hora sem dar tempo para o  socorro. Isso ocorreu às 7h30, ou seja, antes da abertura da loja (Abre as portas às 8h). Os gerentes, administradores ou um nome descolado em inglês decidiram abrir a loja. Pois, para eles perder horas de vendas não é inconcebível, mesmo com um funcionário morto na loja. Tiveram a “ótima” ideia de cobrir o corpo inerte, com guarda-sóis e isolar cerca 5 metros quadrados. Pronto. Loja aberta, pessoas comprando e ali um corpo estendido no chão.

Manoel, o trabalhador que morreu no exercício do trabalho, ficou ali, atrapalhando o trânsito, atrapalhando a venda, atrapalhando o lucro. O caso dele me fez lembrar a música “Construção” de Chico Buarque. Esses dois versos traduzem a situação fidedignamente: “Agonizou no meio do passeio público / Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. Morreu no meio das gôndolas de cerveja, atrapalhando os compradores a escolherem suas cervejas para assistir o futebol de domingo. O Hipermercado decidiu que ele não atrapalharia e que os trabalhadores da loja não ficariam abalados com a situação.

Na pandemia em que vivemos, os supermercados tiveram uma alta de 21%, alguém sempre lucra na tragédia. Esse setor da economia foi um dos que mais cresceu nos últimos meses.  Não quero dizer que o lucro dos mesmos foi ilícito, porém não posso dizer que o caso de Recife não foi um crime. Um crime contra Manoel, um crime contra os funcionários obrigados a trabalhar com um colega morto e um crime contra a dignidade do trabalhador. É preciso sensibilidade e respeito, mesmo o trabalhador atrapalhando o lucro, o senso de humanidade deveria ser um princípio primordial.

Jorge Santana é historiador, pesquisador e documentarista

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