“O Espelho é um gravador de memórias e fortalecimento do coletivo”, diz Lázaro Ramos sobre nova temporada do programa

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Foto: Ana Paula Amorim

Em entrevista exclusiva ao NP, Lázaro Ramos fala sobre nova temporada de programa, escolhas na carreira e homenagem em Festival de Cinema Brasileiro de Paris

Há programas de TV que constroem memória, abordam temas que por muito tempo não foram amplamente debatidos e abrem espaço para a criação de um projeto coletivo. É assim que Lázaro Ramos define Espelho, que estreia sua 20ª temporada nesta sexta-feira (30), às 22h.

Dirigido e apresentado por Lázaro Ramos, o programa atravessa duas décadas reunindo entrevistas e discussões que dialogam diretamente com a sociedade brasileira. Com tanto tempo no ar, o ator conta que, em determinado momento, chegou a pensar que a mensagem já havia sido passada e que talvez fosse hora de parar.

Em um momento eu dei uma cansada. São 20 anos no ar e me pareceu que falávamos dos mesmos assuntos, e vários deles caminhavam muito devagar. Eu quis parar porque achava que as entrevistas feitas ainda faziam sentido, ainda revelam e ainda denunciam. Ter essa percepção foi bom, porque surgiu a ideia de transformar o Espelho. Entendemos que precisávamos caminhar junto com os assuntos, e isso influenciou em tudo”, afirma.

Lázaro Ramos fala sobre carreira, escolhas e sociedade em nova entrevista exclusiva
Foto: Ana Paula Amorim

É nesse exercício de revisitar o passado que Espelho revela sua dimensão histórica e constrói sua nova temporada. Ao longo dos episódios, o programa reúne entrevistas com nomes como a deputada federal Erika Hilton, os atores Juan Paiva, Clara Moneke, Tony Ramos e Andrea Beltrão, o cantor Xamã, o grupo Os Garotin, a cantora Ebony e o escritor Itamar Vieira Junior, entre outros. O primeiro episódio conta com a participação das jornalistas Zileide Silva e Kenya Sade.

As conversas são entrelaçadas a trechos de episódios anteriores que dialogam diretamente com as pautas atuais. Para Lázaro Ramos, esse movimento dá o tom do que ele define como uma temporada estratégica, pensada para refletir sobre os próximos passos do programa e do debate público.

É uma temporada onde vamos ver onde erramos, onde acertamos e, principalmente, para a gente se fortalecer num momento desafiador. Debater os temas que a gente debate na luta antirracista, na construção da nossa identidade, a importância da educação, da cultura, a reflexão da nossa intelectualidade e reflexões de pessoas que nem sempre têm a oportunidade de ter sua voz valorizada”, afirma.

Um programa feito por um coletivo e para o coletivo

Mais do que as entrevistas, Espelho é também uma história de permanência. Pessoas que constroem o programa há duas décadas. “Tem gente que está no Espelho há 20 anos. Nunca abandonaram esse lugar. Isso, pra mim, é muito importante”, afirma Lázaro.

Essa dimensão coletiva ganha destaque especial na nova temporada. O último episódio será dedicado exclusivamente à equipe que construiu o programa ao longo desses 20 anos. Pela primeira vez, quem sempre esteve atrás das câmeras ocupa o centro da narrativa.

Lázaro Ramos recebe no primeiro episódio da temporada de Espelhos, as jornalistas Zileide Silva e Kenya Sade.
Foto: Ana Paula Amorim

É o fortalecimento do coletivo. O Espelho tem muito a ver com isso”, diz. Para Lázaro, levar essa equipe para frente das câmeras é uma forma de demarcar território e afirmar a importância de construir juntos, em um país que historicamente apaga os bastidores da criação negra.

Carreira e escolhas

Lázaro Ramos transita por diferentes lugares como ator, escritor, apresentador e diretor. Ao ser perguntado sobre onde se sente mais inteiro, ele é direto: “Eu sempre tô inteiro, tem essa não. Quando eu escolho, eu entro, seja lá o que for, e isso que me faz manter a paixão pela profissão”. Ele admite, no entanto, que a escrita e a direção são territórios mais desafiadores, por serem campos em que tem menos experiência.

O ator também reconhece o privilégio de hoje poder escolher seus trabalhos. “Tudo o que eu faço, eu escolho. Isso é um privilégio”, afirma. Em 2026, todas as decisões foram conscientes: a nova temporada de Espelho, o espetáculo A Noviça da Cor e o filme O Vento Preto, selecionado para o Festival de Berlim. “Pra honrar essas escolhas, eu tenho que estar inteiro. Então eu me jogo de cabeça.”

Narrativas negras vistas internacionalmente

Lázaro Ramos e Taís Araújo serão homenageados na 28ª edição do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, reconhecimento que celebra não apenas trajetórias individuais, mas um conjunto de histórias que vêm sendo contadas há anos através de seus trabalhos.

Ao falar sobre a homenagem no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, Lázaro Ramos reforça que o cinema negro brasileiro não precisa, o tempo todo, ocupar o lugar da explicação. “Às vezes a gente ocupa esse lugar de ficar explicando, de professor de quem a gente é, do que a gente pensa, e acaba perdendo um tempo danado. As obras também se propõem a provocar”, afirma.

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Para ele, os filmes falam por si e seguem cumprindo esse papel provocador. “As coisas estão aí. Os filmes que eu fiz e que vão ser exibidos lá, por exemplo, Madame Satã é um deles, eu acho que o filme já se explica. Ele está ali para provocar e, inclusive, para gerar assunto e debate”, diz. Lázaro também conecta esse movimento a uma produção recente que vem ganhando visibilidade internacional. “Esse movimento dos últimos anos que vocês estão vendo, com Ainda Estou Aqui, com Agente Secreto, ele permanece. A gente está fazendo um cinema de muito valor, e já faz há muito tempo.”

Segundo o ator, há uma produção intensa em curso no Brasil, mesmo que parte dela ainda não tenha alcançado todos os públicos. “Esses filmes que eu estou trazendo já foram filmados, eles estão aí. Talvez você ainda não tenha visto, mas estamos no Brasil produzindo, falando das nossas narrativas, da nossa estética. Dá uma olhada nisso aí. Isso é Brasil, isso tem valor. Consuma, delicie-se e se provoque”, provoca.

A homenagem em Paris, no entanto, vem carregada de afeto e significado pessoal. “É com muita honra e muita alegria, porque uma homenagem como essa não é pouca coisa”, afirma. Dividir esse reconhecimento com Taís Araújo torna o momento ainda mais especial. “Estar junto com a Taís me dá uma alegria enorme, porque ela é minha grande parceira de vida e de trabalho.

Layla Silva

Layla Silva

Layla Silva é jornalista e mineira que vive no Rio de Janeiro. Experiência como podcaster, produtora de conteúdo e redação. Acredita no papel fundamental da mídia na desconstrução de estereótipos estruturais.

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