Seis em cada dez brasileiros que entram no crédito rotativo do cartão não conseguem pagar a dívida, enquanto os juros dessa modalidade chegaram a 436% ao ano, segundo dados do Banco Central divulgados nesta segunda-feira (30). O cenário evidencia o avanço do endividamento e o impacto direto no orçamento das famílias.
O crédito rotativo é acionado quando o consumidor não paga o valor total da fatura até a data de vencimento e opta por quitar apenas uma parte. Nesse caso, o saldo restante passa a ser financiado com juros elevados, considerados os mais altos do mercado financeiro.
De acordo com o Banco Central, cerca de 40 milhões de brasileiros estavam nessa modalidade de crédito em janeiro. A taxa de inadimplência chegou a 63,5%, indicando dificuldade significativa de pagamento por parte dos consumidores.

Na prática, esse tipo de dívida compromete a renda mensal. Um trabalhador que deixa de pagar integralmente uma fatura de R$ 1.000, por exemplo, pode ver o valor crescer rapidamente nos meses seguintes, dificultando a quitação e levando à necessidade de novos empréstimos para cobrir despesas básicas.
Dados do Banco Central mostram que o comprometimento da renda das famílias com dívidas atingiu 29,33% em janeiro, o maior nível desde o início da série histórica, em 2005. O indicador mede quanto da renda está sendo direcionada ao pagamento de débitos, como cartão de crédito, financiamentos e empréstimos.
Em 2024, entrou em vigor uma medida que limita o valor total da dívida no crédito rotativo. Pela regra, o montante final não pode ultrapassar o dobro do valor original. Assim, uma dívida inicial de R$ 100 não pode superar R$ 200, considerando juros e encargos, sem incluir o Imposto sobre Operações Financeiras.
Mesmo com a limitação, especialistas indicam que o rotativo deve ser evitado por conta das taxas elevadas. A orientação é que o consumidor priorize o pagamento integral da fatura ou busque alternativas com juros menores.
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O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que 101 milhões de pessoas utilizam cartão de crédito no Brasil e que essa modalidade tem papel relevante no endividamento das famílias. Segundo ele, há casos em que o crédito, que deveria ser utilizado em situações emergenciais, tem sido incorporado como parte da renda.
O aumento do endividamento também tem sido acompanhado pelo governo federal. Em declaração recente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que há preocupação com o nível de dívidas da população e indicou a busca por medidas que facilitem o pagamento por parte dos consumidores.
O cenário ocorre em um contexto de juros elevados na economia, o que influencia diretamente o custo do crédito e a capacidade de pagamento das famílias brasileiras.









