Falta de dinheiro pode aumentar risco de doenças do coração, apontam estudos

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A falta de dinheiro pode afetar a saúde do coração. Não diretamente pela condição financeira, mas pelo estresse contínuo gerado pela insegurança econômica. É o que apontam estudos da American Heart Association sobre os impactos de fatores psicossociais nas doenças cardiovasculares.

A pesquisa mostra que dificuldades financeiras prolongadas, desemprego e endividamento elevam os níveis de estresse crônico, aumentando a produção de cortisol, o hormônio do estresse. Mantido alto por muito tempo, esse hormônio pode provocar aumento da pressão arterial, inflamações no organismo e sobrecarga do sistema cardiovascular, elevando o risco de infarto, AVC e outras doenças cardíacas.

O estudo ressalta que não é a falta de dinheiro em si que provoca a doença, mas o estado constante de preocupação, ansiedade e insegurança que acompanha a instabilidade financeira.

No Brasil, esse cenário ganha um contorno racial evidente. Dados recentes do IBGE, do Insper e do DIEESE mostram que pessoas negras, pretas e pardas, são justamente as que têm menor renda no país. Trabalhadores brancos recebem, em média, 67,7% a mais por hora trabalhada do que trabalhadores negros. A renda média mensal da população negra equivale a cerca de 58% da renda de pessoas brancas.

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Essa desigualdade permanece mesmo em cargos de liderança. Diretores negros ganham, em média, 34% a menos do que diretores brancos. A situação é ainda mais crítica entre mulheres negras, que recebem cerca de 53% a menos do que homens brancos.

Especialistas apontam que essa diferença não se explica apenas pela escolaridade, mas por fatores estruturais, como discriminação racial no mercado de trabalho, maior presença de pessoas negras na informalidade e concentração dessa população nas regiões Norte e Nordeste, onde as médias salariais são menores.

Isso significa que, na prática, a população negra está mais exposta ao estresse financeiro crônico apontado pelos estudos como fator de risco para doenças cardíacas.

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Além do impacto hormonal, a insegurança financeira também influencia hábitos cotidianos. Ansiedade, insônia, alimentação desregulada, sedentarismo e menor acesso a acompanhamento médico se tornam mais frequentes em contextos de instabilidade econômica, ampliando o risco cardiovascular.

Estudos indicam que, no ritmo atual de redução da desigualdade, seriam necessários mais de 300 anos para que a renda de pessoas negras se equiparasse à de pessoas brancas no Brasil.

Nesse contexto, cuidar da saúde do coração passa também por compreender como desigualdades sociais e raciais influenciam diretamente o bem-estar físico da população. O estresse financeiro, apontado como fator de risco pelas pesquisas internacionais, tem cor e classe no Brasil.

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