Consumo negro deve movimentar US$ 1,7 trilhão até 2030 e pressiona mercado por representatividade

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Foto: Laila Andrade

O consumo da população negra tem ganhado cada vez mais peso na economia global e já influencia decisões estratégicas de grandes marcas. Um levantamento da McKinsey & Company aponta que esse público deve movimentar US$ 1,7 trilhão até 2030, impulsionando mudanças no mercado de produtos, comunicação e posicionamento das empresas.

O dado reforça uma transformação que vai além do aumento do poder de compra. Historicamente responsável por movimentar cerca de US$ 910 bilhões, o consumo negro tem redefinido padrões ao incorporar identidade, pertencimento e valores culturais como fatores centrais nas decisões de compra.

No segmento de moda e bem-estar, por exemplo, esse mercado já representa cerca de US$ 45 bilhões. Ainda assim, o relatório “Black consumers: Where to invest for equity” aponta que o interesse do público nem sempre é correspondido pelas marcas, especialmente no setor de vestuário.

Investida do Shark Tank Brasil e consultora de imagem à frente da Pittaco Consultoria, Cáren Cruz explica que o consumo pautado pela autoestima, identidade e afirmação será a chave para potencializar ainda mais comunidades afrodescendentes na macroeconomia. – Foto: Laila Andrade

Mais do que consumir produtos, esse público busca reconhecimento e representação. A demanda envolve desde diversidade de tons e modelagens até experiências de atendimento e construção de imagem.

Para a especialista em imagem e comunicação Cáren Cruz, o consumo dentro das comunidades afrodescendentes não pode ser analisado apenas pela lógica da renda.

“O significado de pertencimento aqui não é ‘se sentir bem’ de um jeito abstrato. É a experiência concreta de entrar, circular, comprar e ser reconhecida, sem precisar diluir a própria identidade para ser aceita”, afirma.

Segundo ela, esse movimento reorganiza a lógica tradicional do mercado. “Sai o consumo como tentativa de adequação a um padrão neutro e entra o consumo como construção de narrativa visual e disputa por reconhecimento social. A aparência vira linguagem com intenção”, explica.

A especialista destaca ainda que pessoas negras são frequentemente submetidas a uma leitura mais rigorosa de sua imagem, o que impacta diretamente suas escolhas de consumo.

“Os códigos não verbais são lidos com um nível de vigilância maior. Eles viram prova, filtro de credibilidade ou até pretexto para julgamento”, afirma.

Nesse contexto, investir em produtos e serviços alinhados à identidade passa a ser também um ato de afirmação.

“Quando pessoas negras escolhem produtos que respeitam sua estética, elas estão dizendo ‘eu me valido’ e ‘eu escolho como quero ser lida’. Isso desloca a indústria, o mercado e o senso comum”, diz Cáren.

Para especialistas, o avanço desse consumo tende a pressionar empresas a repensarem não apenas suas estratégias comerciais, mas também suas estruturas internas e seus compromissos com diversidade.

O crescimento desse mercado aponta para uma mudança mais ampla: não se trata apenas de consumo, mas de quem tem visibilidade, legitimidade e espaço dentro da economia.

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