Detentas de unidades prisionais em Pernambuco relatam condições precárias da alimentação servida nas celas, incluindo relatos de comida com larvas, cabelos e alimentos crus, além de punições para quem tenta adaptar a própria refeição. As denúncias somam relatos pessoais e dados oficiais que posicionam o estado como aquele que menos investe na alimentação de pessoas presas no Brasil.
Em mensagens enviadas de dentro de uma das unidades, uma presa descreve a comida como “horrível” e sem sabor. “Tem vez que vem cabelo dentro”, afirmou a mulher, que prefere não ser identificada por medo de retaliações. Ela conta que, muitas vezes, evita as refeições e prefere “ficar sem comer ou comer um biscoito” levado pela família em dias de visita.
Para muitas detentas, a situação não é novidade. Márcia Félix, 35 anos, lembra-se de ter encontrado larvas no cuscuz enquanto cumpria pena em unidades como a Colônia Penal Feminina de Abreu e Lima e o Bom Pastor entre 2014 e 2020. “Já comi comida com tapuru [larvas]… dá até nojo de falar”, contou ao relembrar as refeições malcozidas e, por vezes, infestadas.
Diante da má qualidade dos alimentos, algumas presas recorriam a métodos improvisados para tentar tornar as refeições minimamente comestíveis. Uma técnica apelidada de “perereca de cadeia”, dispositivo artesanal feito com fios e baterias para aquecer a comida ao vapor, era usada clandestinamente — prática que, quando descoberta pelos agentes, resultava em punições sob o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD).
Relatórios oficiais reforçam que Pernambuco é o estado com menor gasto por pessoa no sistema prisional — cerca de R$ 176 por mês para alimentação, segundo estudo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), valor significativamente inferior ao custo de uma cesta básica. A precariedade do sistema prisional estadual já havia sido objeto de condenação pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por tratamento inadequado às pessoas encarceradas.
Representantes de organizações que acompanham a realidade carcerária afirmam que há uma clara diferença entre a comida destinada às presas e à equipe de funcionários. Ingredientes servidos às detentas seriam muitas vezes crus ou sem tempero, com relatos de batata-doce apenas cozida em água.
Em inspeções realizadas em 2024 na Colônia Penal Feminina de Abreu e Lima, agentes públicos não registraram queixas formais sobre a alimentação, embora tenham observado falta de higiene em áreas de punição e indicado que o medo de retaliação pode inibir denúncias oficiais.
Até o fechamento da reportagem, nem a Secretaria de Administração Penitenciária de Pernambuco, nem a Secretaria Nacional de Políticas Penais haviam respondido aos pedidos de posicionamento sobre as denúncias.
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