CARTA ABERTA AO MINISTÉRIO DA IGUALDADE RACIAL

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carta aberta Ministério da Igualdade Racial Mundo Negro Notícia Preta

Sobre a ausência de diálogo entre o Ministério da Igualdade Racial e a imprensa negra independente

Ao
Ministério da Igualdade Racial (MIR)
Governo Federal do Brasil

O Mundo Negro e o Notícia Preta, dois dos principais portais da imprensa negra brasileira, vêm a público registrar, de forma respeitosa e transparente, uma preocupação que compartilhamos há anos: a ausência de diálogo institucional contínuo entre o Ministério da Igualdade Racial e a mídia negra independente do país.

Esta carta não é uma crítica à existência do Ministério, tampouco um pedido de financiamento.  Trata-se de um apontamento responsável sobre a distância que se estabeleceu entre quem formula políticas públicas para a população negra e quem, há décadas, comunica, informa, mobiliza e forma consciência crítica dentro dessa mesma população.

A imprensa negra como patrimônio histórico da luta por igualdade

A imprensa negra brasileira existe desde o século XIX. Foi por meio de jornais como O Homem de Cor, A Voz da Raça e tantos outros que a população negra construiu narrativas próprias, combateu estereótipos e disputou espaço na esfera pública quando os grandes veículos silenciavam suas pautas.

Hoje, no ambiente digital, a imprensa negra independente cumpre esse mesmo papel: informa, forma opinião, fiscaliza o poder público, produz memória e fortalece identidades. Em um país onde o racismo estrutural ainda molda oportunidades, a comunicação antirracista não é acessória, é estratégica.

Quem somos

Mundo Negro
Fundado há mais de 20 anos, o Mundo Negro é um dos portais pioneiros da mídia negra digital no Brasil. Criado e dirigido por Silvia Nascimento, jornalista negra, o veículo mantém-se de forma totalmente independente, sem apoio institucional permanente, produzindo jornalismo, cultura e formação crítica para centenas de milhares de leitores ao longo de duas décadas.

Notícia Preta
Com 7 anos de existência, fundado e dirigido por Thais Bernardes, jornalista negra, o Notícia Preta tornou-se um dos maiores portais negros do país, com milhões de pessoas alcançadas mensalmente em suas plataformas digitais, além de projetos educacionais como a Escola de Comunicação Antirracista, que já formou milhares de pessoas gratuitamente.

Ambos os veículos são liderados por mulheres negras jornalistas que, sem estruturas empresariais tradicionais, sustentam diariamente o maior ecossistema de mídia negra independente do Brasil.

Nosso papel social

  • Produzimos jornalismo com perspectiva racial e de direitos humanos
  • Combatemos desinformação e estigmas raciais
  • Formamos novas gerações de comunicadores negros
  • Conectamos políticas públicas às realidades dos territórios
  • Damos visibilidade a iniciativas, vozes e saberes historicamente silenciados

Esse trabalho é realizado, em grande parte, sem editais específicos, sem políticas permanentes de fomento e enfrentando desafios de sustentabilidade financeira que poderiam ser mitigados por articulação institucional e reconhecimento público.

O que ocorreu: tentativas formais de diálogo sem retorno

Nos últimos três anos, tanto o Mundo Negro quanto o Notícia Preta buscaram diálogo institucional com o Ministério da Igualdade Racial. Registramos abaixo, de forma objetiva, algumas dessas tentativas.

Mundo Negro

  • Participação, a convite do próprio governo, na reunião das mídias negras para a construção do Plano Nacional de Comunicação Antirracista.
  • Após o encontro, foram enviados dois pedidos formais de devolutiva solicitando:
    • Relatório das propostas apresentadas
    • Indicação do que foi incorporado
    • Cronograma das próximas etapas
  • Até o momento, não houve resposta institucional.
  • Solicitações de entrevistas com a Ministra Anielle Franco, reforçando que a pauta seria espaço de escuta e voz institucional. As solicitações deixaram de ser respondidas após determinado momento da gestão.

Notícia Preta

  • Convite formal para participação da Ministra no programa NP Notícias.
  • Em abril de 2025, a assessoria confirmou a entrevista. Dias depois, a participação foi cancelada por agenda.
  • Novas solicitações de datas foram enviadas, sem qualquer retorno posterior.
  • Solicitações de posicionamento e direito de resposta em matérias jornalísticas também não obtiveram resposta.

Articulação pela Mídia Negra

  • Em 2024, a Articulação enviou nota técnica ao MIR denunciando apagamento institucional dentro do Grupo de Trabalho de Comunicação Antirracista.
  • Não houve resposta oficial.

Esses registros não são apresentados aqui como denúncia, mas como fatos documentados que ilustram a ausência de diálogo continuado.

O que defendemos

A construção de políticas públicas eficazes exige escuta permanente da sociedade civil organizada, especialmente de quem atua diretamente na produção de informação para a população que o próprio Ministério busca representar.

A mídia negra independente não é apenas beneficiária potencial de políticas: é parceira estratégica, formuladora de conhecimento, canal de escuta social e ponte entre Estado e território.

Sem diálogo, perde o Ministério. Sem diálogo, perde a sociedade. Sem diálogo, enfraquece-se o próprio projeto de comunicação antirracista que o governo propõe construir.

Nosso chamado

Reafirmamos nossa disposição para o diálogo institucional, transparente e contínuo. Não reivindicamos privilégios. Reivindicamos reconhecimento, escuta e articulação.

Porque comunicação antirracista não se faz apenas em planos escritos, se faz em relações vivas, permanentes e respeitosas entre Estado e sociedade.

Seguimos à disposição.

Att,

Mundo Negro
Silvia Nascimento, Fundadora e Head de Conteúdo

Notícia Preta
Thais Bernardes,  Fundadora e CEO

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