Oito em cada 10 das famílias que vivem em casas sem banheiro no Brasil são chefiadas por pessoas negras. O dado, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revela como o acesso à moradia digna no país ainda está profundamente marcado por desigualdades raciais e sociais.
Ao todo, mais de 1,2 milhão de famílias vivem sem acesso a banheiro, uma condição básica de dignidade e saúde. Entre esses lares, 70% são chefiados por mulheres, o que também evidencia o impacto combinado de desigualdades de raça e gênero.
O problema, no entanto, vai além. Segundo o levantamento, 16,3 milhões de famílias brasileiras vivem em moradias com algum tipo de inadequação, como falta de esgotamento sanitário, ausência de abastecimento de água pela rede pública ou infraestrutura precária. Esse cenário atinge quase 40% das famílias inscritas no Cadastro Único.

A ausência de saneamento é o principal desafio. Mais de 9 milhões de famílias não têm acesso à coleta de esgoto, enquanto outras enfrentam dificuldades no fornecimento de água. O custo estimado para superar essas carências ultrapassa R$ 274 bilhões.
A desigualdade também se expressa no território. De acordo com o relatório “Sem Moradia Digna, Não Há Justiça Climática”, da ONG Habitat para a Humanidade Brasil, 66% da população que vive em áreas de risco, como encostas e regiões sujeitas a enchentes, é negra.
Nesses locais, a renda média das famílias é significativamente menor, e a ausência de infraestrutura básica aumenta a exposição a eventos climáticos extremos. Especialistas classificam esse cenário como racismo ambiental, quando fatores raciais influenciam diretamente quem está mais vulnerável aos impactos urbanos e ambientais.
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“A discriminação racial se revela também na questão da moradia. Isso é resultado de uma dívida histórica do Brasil com a população negra, que foi privada do acesso a esse direito fundamental”, afirma Raquel Ludermir, gerente de Incidência em Políticas Públicas da Habitat para a Humanidade Brasil.
Além das condições físicas da moradia, a insegurança também é maior entre esses grupos. Dados do IBGE mostram que mulheres e pessoas negras relatam maior sensação de insegurança dentro de casa e nos bairros onde vivem. A falta de documentação da propriedade, comum entre famílias de baixa renda, agrava essa vulnerabilidade.
Os dados evidenciam que o déficit habitacional no Brasil não é apenas um problema de infraestrutura, mas também de desigualdade racial. Na prática, isso significa que a população negra segue sendo a mais afetada pela falta de acesso a condições básicas de moradia e pela exposição a riscos urbanos e climáticos.










