“É preciso entender nossa responsabilidade coletiva na luta contra violência de gênero”, diz diretora do documentário ‘Estopim’ 

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A partir de casos conhecidos do público, “Estopim” analisa a reação da sociedade, da mídia e do sistema de justiça, ao mesmo tempo em que investiga os fatores históricos e culturais que contribuem para que essas violências continuem

Série documental que estreia neste domingo (08) analisa os fatores sociais, culturais e institucionais que ajudam a explicar a violência de gênero no país

“A violência contra as mulheres exige que a gente reconheça a nossa responsabilidade coletiva. É muito fácil apontar para um agressor e dizer que ele é um monstro isolado, mas a realidade é mais complexa. Essas violências acontecem dentro de uma estrutura social que muitas vezes naturaliza ou minimiza esses comportamentos”, é o que explica, Ana Teixeira, a diretora de ‘Estopim’. A série documental estreia neste domingo (08), no Canal Brasil, e ao longo de cinco episódios revisita histórias marcantes de violência contra mulheres a partir do ponto de vista feminino, buscando compreender como a violência de gênero é construída e perpetuada no país.

A produção investiga casos que provocaram grande comoção pública, mas também chama atenção para violências que acontecem cotidianamente e acabam sendo banalizadas. Para a diretora, compreender essas histórias exige olhar para além do crime em si e analisar as estruturas sociais, políticas e culturais que permitem que essas violências se repitam.

Estopim é uma série documental que vai abordar a violência de gênero no país
Foto: Divulgação/ direção de arte e ilustração de Lívia Serri Francoio e Luma Flôres

Violência como estrutura de poder

Ao longo da série, Estopim parte da ideia de que a violência contra mulheres não é um fenômeno isolado, mas resultado de relações históricas de poder. Por isso, o primeiro episódio aborda o assassinato da vereadora Marielle Franco como um símbolo dessas disputas.

“Quando falamos de estruturas políticas e sociais, estamos falando de quem ocupa os cargos de decisão. E quando as mulheres não estão nesses espaços ou quando estão em número muito pequeno fica muito mais difícil que nossas percepções e experiências sejam levadas em conta”, afirma Ana

A diretora explica que a presença feminina em espaços de poder é fundamental para transformar esse cenário. “Ter mulheres em posições de liderança e tomada de decisão é essencial para começar a minar essas estruturas. Não dá para pensar em transformações profundas sem incluir mulheres nesses lugares de fala e de poder.”

Outro ponto central da série é a forma como a sociedade continua reproduzindo a culpabilização das vítimas, independentemente da época. Segundo a diretora, ao analisar casos de diferentes décadas, a equipe percebeu que essa lógica se repete com frequência.

“Estopim” analisa a reação da sociedade, da mídia
e do sistema de justiça
Foto: Divulgação/ direção de arte e ilustração de Lívia Serri Francoio e Luma Flôres

“Quando olhamos para casos de diferentes períodos, vemos que a sociedade continua tentando encontrar alguma responsabilidade na vítima pela violência que ela sofreu. Isso tem relação com estruturas culturais muito profundas, transmitidas de geração em geração”, diz.

Caminhos para a mudança

No último episódio, Estopim amplia o debate ao abordar como a violência de gênero afeta de maneira desigual mulheres negras, indígenas e aquelas que vivem no campo ou nas periferias. A série também discute a importância de pensar políticas públicas a partir dessas diferentes realidades.

“Existe uma violência que gera grande comoção e vira notícia, mas também há violências que acontecem todos os dias e acabam sendo invisibilizadas. Entender essa interseccionalidade é fundamental para perceber que as políticas públicas precisam ser pensadas para contextos diferentes”, afirma a diretora.

Entre os desafios apontados está a dificuldade de acesso a serviços de proteção em cidades pequenas ou áreas rurais. Delegacias da Mulher, por exemplo, costumam existir apenas em municípios com mais de 100 mil habitantes, o que deixa muitas mulheres sem acesso a um atendimento especializado.

Para Ana, a transformação também passa pela educação e pelo fortalecimento de redes de apoio entre mulheres. “A educação aparece como um eixo central. Precisamos discutir igualdade de gênero desde cedo. E também fortalecer a solidariedade entre mulheres, porque muitas não conseguem sair de relações abusivas justamente por não sentirem que têm uma rede de apoio.”

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Depois de cinco anos de produção, a diretora afirma que o principal legado da série é provocar reflexão coletiva. “Não existe uma solução simples. Não basta criminalizar algumas pessoas e achar que o problema está resolvido. A violência contra mulheres exige que todos nós reconheçamos nossa responsabilidade nessa mudança.”

Estopim estreia neste domingo (08), com um primeiro episódio às 21h sobre Crimes Políticos no Canal Brasil. A série documental tem direção de Ana Teixeira, direção de arte e ilustração de Lívia Serri Francoio e Luma Flôres e produção da Escafandra Transmedia.

Layla Silva

Layla Silva

Layla Silva é jornalista e mineira que vive no Rio de Janeiro. Experiência como podcaster, produtora de conteúdo e redação. Acredita no papel fundamental da mídia na desconstrução de estereótipos estruturais.

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